quarta-feira, 30 de abril de 2008

29 - Caindo a ficha

Eu estava a caminho do restaurante. Cheguei e estacionei o carro. Pelo visto, todos já estavam ali. Entrei e meu olhar correu pelo restaurante procurando-os. Só faltava eu. Cumprimentei a todos. A pegajosa da Milena estava sentada ao lado de Cláudia. Tive de me sentar no lugar que me restou, ou seja, longe de Cláudia, pois todos queriam ficar perto dela. Como o pessoal é puxa-saco. Credo! Mas a única pessoa que me incomodava ali era a Milena. Não largava mais a Cláudia. Será que estava rolando algo entre elas?

O almoço começou, todos se serviram. E o papo fluía agradável. O assunto? A comemoração de final de ano. O fim do ano se aproximava e o pessoal estava empolgado. Sempre nos reuníamos na associação recreativa do banco, que era localizada em uma chácara. Era um lugar gostoso de ir. Já era uma tradição a comemoração de final de ano ser lá.

Eu comia lentamente tentando digerir o que estava vendo. Milena constantemente pegava no braço de Cláudia. E eu não estava gostando de ver isso. Nem um pouco! Teve um momento que ela cochichou no ouvido de Cláudia. Meu sangue ferveu. E Cláudia respondeu-lhe algo afirmativamente. Estava estranhando a minha reação. Minha vontade era pegar Milena pelos cabelos e tirá-la dali. Tirá-la de perto de Cláudia. Céus, eu estava com ciúmes de Cláudia! Mas eu não devia ter ciúmes dela. Não tinha nada com ela. Definitivamente eu não estava me entendendo. Meu desejo era que este almoço terminasse logo. Queria sair dali. De repente senti-me sufocada. Pedi licença e dirigi-me ao banheiro. Ao chegar nele molhei minhas mãos e molhei meu pescoço. Estava sentindo-me um pouco melhor, mas sentia meu coração apertado. Sequei-me. Ouvi alguém entrando. Vi pelo espelho que era Cláudia.

- Está tudo bem, Roberta? Perguntou-me demonstrando preocupação.

- Tá sim. Estou bem. Tentei sorrir. Ela aproximou-se de mim.

- Está mesmo? Insistiu olhando em meus olhos.

Desviei o olhar. Bateu-me uma vontade de chorar.

- Sim. Falei com a voz embargada, meus olhos estavam úmidos.

Ela levou a mão até meu rosto e o levantou para que eu a olhasse. Faltava pouco para as lágrimas correrem. O que estava acontecendo-me?

- Roberta. Disse e abraçou-me.

Não resisti e as lágrimas rolaram soltas. Definitivamente não estava entendendo-me. Não entendia porque estava chorando. Deixei-me ser abraçada por ela. Sentia-me protegida em seu abraço. Abracei-a também.

- Quer me dizer o que lhe aflige? Perguntou-me toda carinhosa, fazendo carinho em meus cabelos.

- Eu... Não sei...

Nisso ouvimos alguém entrando no banheiro. Vi que era Milena. Saí do abraço, sequei meus olhos com as mãos e saí sem olhar para Cláudia ou Milena. Tudo o que eu não queria era que essa mulher me visse chorando. Até hoje nunca tive nada contra ela. Nunca fomos amigas. Apenas nos tratávamos com cordialidade. Mas eu estava com raiva dela. E o motivo era Cláudia. Estava com ciúmes. Tinha consciência disso. Não queria sentir ciúmes. Não queria, mas senti que a chama do amor que tive no passado estava querendo reacender. Isso não poderia estar acontecendo. Não de novo. Teria que sufocar isso. Não queria viver nada com ela de novo. Devia estar confundindo as coisas. Era isso. Estava confusa, só isso. Estava carente de amor. Carente de atenção. Carente de carinhos. Carência pura. Não era paixão, era carência. Estava há dois anos sem ninguém. Cláudia foi alguém que eu amei no passado e estava transferindo essa carência para a pessoa dela. Não poderia fazer isso. Tinha que evitar ao máximo isso.

As duas retornaram à mesa. E logo estavam conversando com os outros. Cláudia às vezes me olhava. Eu tentava participar das conversas, mas não estava a fim. Sentia-me cansada. Minha vontade era ir para casa e enfiar-me debaixo dos lençóis e sair de lá só amanhã. Mas não podia, pois tinha a tarde toda para trabalhar. Enfim o almoço terminou e retornamos ao banco. A tarde para mim se arrastou. Eu estava deprimida.

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Sexta à tarde ainda. Quando vi Roberta levantar-se apressada e ir ao banheiro, preocupei-me. Tratei de ver o que ela tinha. E quando vi que ela estava quase chorando não resisti e a abracei. Queria protegê-la do que fosse que a estivesse preocupando. Não suportava vê-la chorando.

Estava preocupada com ela. O que aconteceu para fazê-la chorar? Queria ter conversado com ela, mas Milena teve de aparecer justo naquele momento. Tinha horas que Milena acabava sendo inconveniente. Já estava me arrependendo de ter aceitado ir ao tal churrasco amanhã à noite. Mas já tinha dado a minha resposta. Nos próximos convites daria uma resposta qualquer para não ir.

A única pessoa que eu interessava ter por perto era a minha Roberta. Só queria ela. Eu estava ansiosa pelo almoço de domingo. Muito ansiosa. Estava me sentindo uma adolescente apaixonada.

Sábado à noite chegou. Eu já estava no tal churrasco. Vim de carona com Milena. Era na casa de uma amiga dela. Tinha umas trinta pessoas, alguns casais héteros e pelo que pude notar a maioria eram casais de gays e lésbicas. Se eu tinha alguma dúvida sobre Milena, poderia dizer que ela me deu a dica toda. Algumas pessoas estavam na maior agarração. E Milena estava dando todas as indiretas possíveis para mim e eu fazia-me de desentendida. Se ela me desse uma direta, teria de ser indelicada e colocá-la no devido lugar. Não queria nada com ela a não ser amizade, mas se começasse a ser muito inconveniente, nem isso!

Roberta não saía da minha cabeça. Queria muito conversar com ela, mas para tocar nesse assunto teria que esperar um momento apropriado. Talvez amanhã eu conseguisse ou não. Sei lá. Milena aproximou-se de mim toda sorridente.

- Você está tão quietinha? Algum problema, Cláudia? Ou não está gostando?

- Não e sim. Ri. - Nenhum problema e o churrasco está ótimo. Só estava aqui pensando em algumas coisas.

- Algumas coisas?

- Coisas do banco. Sabe como é, não consigo me desligar às vezes.

- Entendo, mas assunto do banco deve ficar lá no banco, não acha?

- Acho. Disse e sorri para ela.

- Vamos dançar? Ela convidou-me.

A música rolava solta. Olhei e vi algumas pessoas dançando. Não era coladinho, então não via problema.

- Vamos. Estou precisando agitar o esqueleto mesmo. E fomos dançar um pouco.

Milena dançava de forma sensual e lançava-me olhares provocantes. Mas o problema era que o único olhar que eu queria receber era de um azul lindo acompanhado de um sorriso meigo, fofo, que eu amava.

O churrasco terminou e fomos embora. Estava cansada. Queria que o dia de amanhã chegasse logo. Chegamos no meu prédio. Senti que Milena esperava um convite para subir ao meu apartamento e novamente me fiz de desentendida. Despedi-me dela rapidamente sem dar tempo de qualquer coisa. Achei que ela foi embora decepcionada, mas não poderia das asas a isso. Fui direto tomar um banho, estava toda suada. Um banho quentinho. Era o que eu estava precisando. Depois caí na cama e dormi igual um anjo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Minhas queridas leitoras,

Desculpem-me pela demora em postar o conto hoje. Tive alguns contratempos pela manhã e sei como a ansiedade nos deixa malucas...rs... mas estou postando-o agora.
Boa leitura!
Beijos
Gatafield

28 - Assim me acostumo mal

Estava pensando na visita que havia recebido hoje. Aliás, recebi duas. Uma de Milena e outra da minha amada Roberta. Milena convidou-me para um churrasco no sábado à noite. Não estava muito a fim de sair com ela. Mas eu achava que não haveria mal algum. Era só não dar crédito às suas investidas ou eu aceitando ela iria interpretar outra coisa? Que sinuca! Não sei se iria ou não. Eu adorei mesmo foi o convite de domingo e nesse eu iria de olhos fechados. Fechados? Nem pensar, meu olhos teriam de estar bem abertos para ver aquela deusa em forma de mulher. Roberta era uma mulher adorável, simpática, uma graça e eu estava babando por ela. Ri. Não sabia como eu estava me agüentando de tanta vontade de beijar aquela boca apetitosa. Senti-la de novo em meus braços. Sonhava com isso. Delirava com isso. Peguei o telefone e disquei um número.

- Alô.

- Alô. Henrique?

- Sim, é ele.

- Oi, é a Cláudia.

- Oi, Cláudia. Tudo bem, menina?

- Tudo. Você pode conversar sobre a Roberta comigo agora?

- Tudo limpo. Podemos nos falar.

- É sobre esse almoço de domingo.

- Pois é, tive a idéia desse almoço porque quero observar Roberta, em como ela reage perto de você.

- É mesmo? Acho que pra mim ela reage normal.

- É, mas eu sou mais PhD em Roberta que você.

- Tá certo. E o que você acha até agora?

- Cláudia, Roberta está osso duro de roer. Olha, não quero lhe desanimar, mas ela não quer saber é de ninguém.

- Água mole em pedra dura...

- ... tanto bate até que fura. Henrique riu. – Vamos mexer nossos pauzinhos. Quero Roberta com alguém de novo.

- Henrique, não quero ser pessimista, mas por que você acha que ela voltaria a se apaixonar por mim?

- Tenho meus feelings, ok. Confie em mim.

- Tá, eu confio.

- Olha, agora não posso falar mais que o Rafael tá vindo aqui, tá. Tchau.

- Tá, tchau.

Desliguei o telefone e voltei a pensar em Roberta. Por que, depois de todos esses anos, ela voltaria a se apaixonar por mim? Quem disse que o primeiro amor era para sempre? Estar perto de Roberta me enchia de esperanças, mas isso não era garantia de nada. Hoje quando a abracei, minha vontade foi tomá-la nos braços e fazê-la minha mulher de novo. Doía-me, essa incerteza rasgava-me o coração. O que eu mais queria era Roberta de novo em minha vida. Mas como conquistar um coração marcado por um passado dolorido? Como chegar até esse coraçãozinho? Como conquistá-lo... ou melhor, como reconquistá-lo? Eu não sabia, só sabia que iria utilizar todos os recursos para isso acontecer.

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Receber rosas de novo deixou-me alegre. Não sabia quem estava mandando elas, mas eu estava adorando. Quem seria? Seria alguém do banco? Nunca imaginei isso acontecendo em minha vida, mas era emocionante.

Lembrei-me de Cláudia. Ela estava mais tempo do que eu gostaria em meus pensamentos. Como seria esse almoço de domingo? Acho que seria divertido. Com Rafael por perto seria diversão garantida. Sexta-feira teria o almoço em Santa Felicidade. Hummm... acabei de ter uma idéia. Iria chamar Cláudia para ir comigo em meu carro. Iríamos para o mesmo lugar e depois voltaríamos para o banco. Maravilha. Amanhã faria isso e aproveitaria e a veria novamente. Roberta, Roberta. Você estava querendo muito ficar perto de Cláudia. Cuidado, hein. Eu era maluca. Ri. Eu mesmo repreendia-me. Iria dormir que ganhava mais. Amanhã era outro dia.

Quarta-feira. Não consegui ver Cláudia na parte da manhã. Fui à tarde. Cheguei e em seguida fui a sua sala. Abraçou-me... hummm... seu perfume era maravilhoso... deu-me beijos nas bochechas. Recebeu-me com um sorriso enorme. Minhas pernas? Estavam bambas. Meu corpo? Tremendo. Minha face? Devia estar vermelha, mas nada que eu não conseguisse disfarçar com um imenso sorriso estampado em meu rosto.

- Adoro as suas visitas, Roberta.

- Virei mais vezes então. Ri. – Vim aqui para lhe fazer um convite.

- Uau. Assim você me acostuma mal. Se cada visita tiver um convite seu, vou querer visita todo dia. Falou sorrindo.

- Boba. É o seguinte, na sexta vamos até Santa Felicidade para o almoço, daí pensei que, se você não se importar, poderia ir comigo. O que acha?

Cláudia ficou me olhando por alguns segundos. Será que eu disse alguma bobagem?

- Adoraria, Roberta. Mas já me convidaram.

- É mesmo? Perguntei meio triste. Poxa, cheguei tarde. Pensei.

- Sim.

- Humm... e posso saber quem foi mais rápido do que eu? Perguntei sorrindo.

- Claro. Foi a Milena.

Não gostei. De novo essa mulher. Estava mesmo dando descaradamente em cima de Cláudia. Bom, mas não tinha nada a ver com isso. Suspirei.

- Bom, se você já está convidada, resta-me lamentar. Sorri tentando não demonstrar a minha decepção. – E quando ela lhe convidou?

- Hoje, na hora do almoço.

- Ah, tá. Disse. Então almoçaram juntas. A coisa está ficando mais séria do que eu pensava. Pensei. – Então vou voltar para o meu trabalho. Disse olhando para seus olhos verdes que eu adorava.

- Mas já?

- Sim. Tem um monte de coisas para eu analisar e resolver. Só dei uma escapadinha para lhe convidar mesmo.

- Numa próxima vez eu prometo que vou com você. Ela me falou olhando firmemente em meus olhos. Cheguei a sentir um arrepio em meu corpo.

- Combinado então. Mas deixe-me ir.

- Não estou lhe segurando. Falou rindo e se levantou.

- Ah. Tô indo.

Ela veio em minha direção e deu-me um outro abraço e mais beijos nas bochechas. Eu já estava acostumando-me com isso. Olhei em seus olhos. Sem querer levei meu olhar para sua boca, senti uma vontade enorme de beijá-la. Uma vontade que veio forte. Afastei-me.

- Tchau. Disse.

- Tchau, Roberta.

Saí rápido de sua sala sem olhar para trás.

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Sexta-feira de manhã. Eu iria acabar me acostumando com isso. De novo recebi outro buquê de rosas vermelhas. Só que desta vez um pouco menor e junto com uma caixa de presente. Meus olhos brilhavam. Que mulher não gostava de receber isto? Olhei para frente e lá vinha a Magali. Não pude deixar de rir.

- E aí. Agora diz quem é? Já chegou perguntando.

- Nem olhei ainda Magali. Calma, já vou ver.

Peguei o cartão e o abri. Tava escrito praticamente a mesma coisa, só que desta vez tinha uma frase a mais. “Para uma linda mulher, com todo amor. Com beijos doces.” Uau. Assim iria me apaixonar. Pensei sorrindo.

- E aí, diz? Magali perguntou toda aflita. Olhei para ela e sorri.

- Não, não diz.

- E você diz isso com essa cara despreocupada.

- Ué. O que você quer que eu faça?

- Que descubra, oras. Disse e apontou para o embrulho de presente. – Não vai abrir?

- Ah, Magali. O que eu faço com você, sua curiosa? Falei sorrindo.

- Nada, apenas mate a minha curiosidade.

- Olha, a curiosidade matou o gato, tá.

- Ah, deixa de bobagem e abre logo. Falou batendo a mão em palmas.

Suspirei resignada. Peguei o embrulho e comecei a abrir. Uau. A-M-O. Era uma caixa de Nhá Benta da Kopenhagen. Eu a-m-o Nhá Benta. Nossa, agora me assustei. O meu admirador estava bem informado dos meus gostos.

- Uau, Roberta. Você ama Nhá Benta.

Olhei para Magali. Se ela sabia, o banco inteiro sabia disso. Não pude deixar de rir.

- Tá rindo de quê?

- Ai, Magali. Desde quando você sabe que eu gosto de Nhá Benta?

- Desde que você era estagiária.

Olhei assustada para ela.

- E você nunca se esqueceu disso?

- Não, vai que eu pego você de amiga oculta. Assim já sei o que lhe dar.

- A-há, por isso que ganhei algumas vezes Nhá Benta de amigo oculto. O pessoal perguntou para você!

- Não escondo o jogo. Até você já recorreu as minhas informações.

- É verdade. Aceita uma? Abri a caixa e ofereci a ela.

- Chocolate... de manhã? Não, obrigada. E isso aí engorda.

- Ah, mas é um manjar dos deuses. Peguei uma e comecei a saboreá-la. Fiz um furinho e sugava o marshmallow por ele. Sempre comi Nhá Benta assim. Uma delícia.

- Olha, estou pensando em abrir uma bolsa de apostas para descobrir quem é seu admirador.

- Quê?! Quase engasguei.

- É, já falei com Maurício e ele está organizando a bolsa de apostas.

- Caraca, isso é sério mesmo?

- Sim, isso é uma diversão.

- E quais são as opções? Perguntei curiosa.

- Ainda estamos montando.

- É, mas não se esqueça que pode ser alguém de fora do banco. Disse e não acreditei que eu estava colaborando com essa idéia maluca.

- Ui, você cismou com isso, hein. Pode deixar que eu coloco sim.

- Você é uma maluca, Magali.

- E quem não é. Disse isso e saiu.

Magali definitivamente não existia. A mulher desta vez surtou mesmo. Uma bolsa de apostas. Cada coisa que ela inventava. Olhei para as rosas. Quem era você, meu admirador? Não sei quem era, nem imaginava. Só sabia que a Nhá Benta estava uma delícia. Continuei saboreando-a. A manhã fluiu que foi uma maravilha. Mais tarde seria o almoço em Santa Felicidade.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

27 - De novo?

- Você e sua mania de não querer me contar as coisas. Sabe que eu morro de curiosidade de saber como foi. Henrique disse todo dramático.

- Você está me lembrando alguém, falando dessa forma. Falei gargalhando.

- Não, não me diga que estou parecendo a sua amiga Magali, a super discretíssima? Henrique perguntou e fez cara de assustado. Tive que rir dele.

- Claro, né. Quem mais tem essa curiosidade nata.

- Ah, Roberta, sou mais discreto que ela tá. Pelo menos minha curiosidade é em relação a você e a dela é de todo mundo.

Era domingo e eu estava visitando Henrique e Rafael.

- Nosso almoço foi... humm... agradável.

- Agradável? Só isso? Pensei que você fosse me dizer algo como... inesquecível... ou maravilhoso... ou apaixonante... ou...

- Rique! Foi apenas agradável, ok. Apenas um almoço. Só isso.

- Sei... agradável. Disse isso e ficou me analisando, e isso me dava nervoso.

- O que você esperava, Rique? Que nós nos agarrássemos e voltássemos a nos relacionar como antes?

- Você tá precisando disso. Henrique falou sério.

- Posso até estar, mas não seria com ela.

- E por que não, posso saber?

- Ela é passado. Já foi e não deu certo. E além do mais, não quero ninguém e nem mais decepções em minha vida. Dá pra você entender isso?

- Não, Roberta, não dá. Não posso admitir você fazer isso com sua vida. Rique pegou minhas mãos e olhou-me nos olhos. – Quero ver você feliz de novo, só isso! Eu amo você, Roberta e quero demais ver você feliz.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto.

- Eu sei, Rique. Falei fungando.

- Permita-se amar de novo. Não sabemos se você vai ter outra decepção ou não, mas o amor é tão belo que vale a pena, meu anjo.

- Mas não quero mais Cláudia em minha vida, a não ser como amiga.

Henrique suspirou e pensou: “Não seria fácil convencer Roberta, mas sinto que ela sente algo pela Cláudia, não vou desistir.”

- Só como amiga?

- Sim.

- Então uma nova amizade está se iniciando?

- É, posso dizer que sim. Não tenho porque ser antipática ou indiferente com ela. O que passou, passou. E não tocamos em nada do nosso passado em comum. Melhor assim.

- Humm... melhor mesmo. Agora, quero saber uma coisa. Eu posso convidar Cláudia para um almoço aqui em casa no domingo que vem?

- Hããnn.. Um almoço?

- Sim, acho que não teríamos problemas, não é? E, além disso, quero conversar com ela, saber como ela está.

- Tá. Eu falo com ela esta semana.

- Acho que ela se lembra de mim, né?

- Você é inesquecível, meu amigo. Falei rindo.

- Ufa! Folgo em saber. Riu também.

- Sobre o que vocês estão rindo? Quero saber a piada também. Rafael, que acabava de entrar na sala, perguntou.

- Estávamos falando de Cláudia, meu amor. Henrique falou.

- Cláudia? Quem é? Rafael perguntou.

- É... Rique olhou para mim.

- É uma amiga. Apressei-me em dizer. – Quando eu fazia estágio no banco ela era minha supervisora e agora voltou a trabalhar na regional.

- Humm... Legal. E o que tem ela? Rafael perguntou.

- Convidei-a para almoçar aqui no domingo que vem. O que você acha? Rique perguntou para Rafael.

- Acho legal, assim fico conhecendo essa tal de Cláudia... e adoro visitas. Rafael falou sorrindo.

- Perfeito, então. Vamos jogar nosso carteado agora? A louça tá bem lavadinha, amor? Henrique perguntou sorrindo para Rafael.

- Tá um brinco. Rafael respondeu com trejeitos femininos e eu não agüentei e gargalhei. E assim, nesse clima descontraído passamos o nosso domingo.

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Segunda-feira foi tudo dentro do normal. Não vi Cláudia. Soube que passou o dia em reuniões e claro, quem me falou foi a Magali. Na semana passada tinha sido decidido que o almoço de sexta-feira seria num restaurante em Santa Felicidade.

Na terça-feira tudo normal também, até eu novamente sentir a presença de alguém e levantar os olhos e ver um imenso buquê de rosas vermelhas. Meu coração pulou forte desta vez. Meu Deus, outro buquê? Quem seria esse admirador? Recebi-o com um sorriso de orelha a orelha. Claro que Magali já estava do meu lado, toda curiosa.

- Uau. Ela disse. – Esse tá de quatro por você.

- É, pelo visto parece.

- E dessa vez diz o nome de quem mandou?

- Vamos ver o cartão. Peguei o cartão e o abri. Estava escrito o mesmo da outra vez. “Para uma linda mulher, com todo amor.” Não tinha nenhuma referência, nenhuma pista. Meu Deus, quem seria esse louco apaixonado? Ou seria louca apaixonada? Sorri do meu pensamento.

- Do que você está sorrindo?

Meu Deus, mas como Magali era curiosa. Pensei.

- De novo diz a mesma coisa. Falei.

- Sério?

- Sim, olhe. Estendi o cartão para Magali.

- Poxa, assim não dá pra saber nada.

- Bom, seja quem for, uma hora vai se revelar.

- É mesmo, até porque quem vai querer ficar mandando rosas apaixonantes para uma linda mulher e querer ficar no anonimato? Mas você deve estar muito curiosa, né?

- Estou curiosa sim, Magali, mas acho que menos que você. Falei rindo. – Mas não deixo de dormir por isso.

- Ah, eu não sossegaria enquanto não descobrisse. Ai, por que eu não ganho essas coisas, hein? Magali disse e saiu.

Tive que rir. Magali não tinha muita sorte com os namorados dela. Acho que tinha a ver com essa curiosidade dela. Pelo jeito era daquelas mulheres que queriam saber de tudo, a maior pegação de pé. Assim não dava, né.

De repente lembrei-me de Cláudia, não a tinha visto ainda hoje. Não queria admitir, mas estava com saudades dela. Será que teria algum problema se eu aparecer para tomar um cafezinho com ela? Assim aproveito e a convido para o almoço de domingo. É, iria fazer isso e fui em direção ao andar dela. A cada passo que eu dava meu coração se acelerava. Por que isso, hein? Não deveria ficar assim, até porque não estou apaixonada por ela.

Cheguei e pedi para Rebeca anunciar-me e Cláudia pediu que eu aguardasse um pouquinho. Logo depois a porta se abriu e Cláudia e Milena apareceram na porta. Não gostei do que vi. Essa Milena estava descaradamente dando em cima de Cláudia.

- Depois você me dá uma resposta. E olha, não aceito um “não”, tá. Falou Milena toda melosa.

- Tá bom, Milena. Depois lhe digo.. Cláudia falou sorrindo.

- Até mais então, Cláudia. Se despediu dando beijinhos no rosto de Cláudia.

Ah, eu fervi de raiva. Cheguei a me assustar com a reação. Eu não tinha nada a ver com isso. E se as duas quisessem namorar isso era problema delas. Milena saiu em seguida e lançou-me um olhar vitorioso. Não gostei desse olhar.

- Bom dia, Roberta. Cláudia disse e veio em minha direção e deu-me um abraço. Fui pega de surpresa. Correspondi ao abraço. Senti pequenos choques pelo corpo. Na seqüência ela deu-me um beijo na bochecha. Fiquei sem ação.

- Bom... dia, Cláudia. Respondi com certa dificuldade. Iria começar a gaguejar agora?

- Entre.

Entramos em sua sala. Perguntou-me se eu queria um cafezinho e diante da minha afirmativa pediu para Rebeca providenciar.

- Nossa, a que devo a honra da sua visita? Cláudia perguntou-me sorrindo.

- Vim visitar-lhe e fazer-lhe um convite.

- Um convite? Uau... Adoro convites. Sorriu e olhou-me com aqueles olhos verdes lindos.

- Sim, lembra-se do Henrique?

- Sim, me lembro. Era o seu amigo da faculdade, não é? Cláudia disse.

- Sim, ele mesmo. Pois então, falei de você para ele e ele pediu que eu lhe convidasse para um almoço na casa dele domingo agora.

- Um almoço de domingo! Isso é ótimo.

- E então, aceita?

- Mas é claro que eu aceito. Assim o revejo. Cláudia disse sorrindo.

Seus olhos verdes estavam brilhando de alegria. Cláudia era aquele tipo de mulher em que a passagem do tempo só lhe fazia bem. Estava mais linda que antes, mais madura, mais interessante, mais.... mais o quê, Roberta? Até parece que estava apaixonada? Apaixonar-me por ela de novo, nem pensar!

- Ele vai ficar todo feliz em saber que você aceitou.

- Acho que vai ser maravilhoso. Cláudia disse.

- Vai sim. Bom, preciso voltar para o meu trabalho. A gente se fala mais depois, ok?

- Ok. Ah... fiquei sabendo que o admirador atacou de novo. Cláudia falou rindo.

- Meu Deus, como as notícias aqui voam.

- Pois é, o serviço express da Magali. Cláudia riu.

- Ela lhe contou?

- Não, contou para Rebeca e eu por acaso ouvi.

- Pois é, Magali é um perigo! Falei rindo. – Tô indo.

Cláudia levantou-se e aproximou-se de mim e deu-me outro beijo na bochecha. Tive o repentino desejo de virar o rosto e o beijo acertar na minha boca. O que estava me acontecendo? Despedi-me dela e saí rápido de sua sala.

domingo, 27 de abril de 2008

26 - Surpresa

Estava em meu apartamento. Andava em círculos. Eu estava nervosa. Jamais esperava que Cláudia me convidasse para um almoço. Jamais! E amanhã ela queria almoçar comigo! Ai, meu Deus, como seria ficar frente a frente com ela? Eu conseguiria sobreviver? Por mais que eu tentasse agir de forma natural, por mais que eu não quisesse ficar nervosa, não tinha jeito, eu ficava nervosa. Até cheguei a gaguejar quando ela me convidou para almoçar. Que ódio!

A minha sorte era que eu já tinha compromisso com Henrique. Porque se fosse naquele momento eu simplesmente não conseguiria engolir a comida. Droga, eu não deveria sentir mais nada na presença dela, mas eu ficava nervosa demais. Droga, droga, droga. A minha intenção de manter-me o mais distante dela estava indo por água abaixo. Como seria esse almoço amanhã?

Dia seguinte. Quase não preguei o olho, estava com olheiras e tive que caprichar na maquiagem para disfarçar. Já estava em minha mesa de trabalho, tentando em vão concentrar-me, mas Cláudia estava em meus pensamentos muito mais do que eu gostaria que estivesse. Aliás, não era nem para ela estar em meus pensamentos. Por que ela estava mexendo tanto assim comigo? Ai, o almoço de hoje. Sentia um frio no estômago quando lembrava-me dele.

Estava tentando analisar um relatório quando senti a presença de alguém na frente da minha mesa. Levantei meus olhos e vi um imenso buquê de rosas vermelhas. Lindo! O entregador, um rapaz simpático, perguntou se eu era a Roberta, confirmei que sim. Então ele entregou-me as rosas. Fiquei com cara de boba olhando para aquele imenso buquê, sem entender nada. Nisso Magali se aproximou.

- Uauuu... Quando vi esse buquê fiquei imaginando quem ganharia ele. Até pensei que gostaria de ser eu!

- Pois é... Eu ganhei. Disse sorrindo.

- E quem mandou? Magali perguntou curiosa como sempre.

- Não sei ainda. Deixe-me ver o cartão.

Peguei-o e abri. Estava escrito: “Para uma linda mulher, com todo amor.” Não dizia quem mandou. Teria eu um admirador anônimo? Meu Deus, quem seria?

- E então, de quem é? Magali perguntou se roendo de curiosidade.

- Não sei.

- Como assim não sabe? Magali pergunta toda espantada.

- Não diz quem mandou.

- E o que diz o cartão?

- Magali! Deixe de ser curiosa!

- Não me deixe morrer de curiosidade, Roberta. Isso é maldade.

- Tome. Estendi o cartão para ela. – Leia.

- “Para uma linda mulher, com todo amor.” Uau, um admirador anônimo. Que legal! Aí, Roberta, arrasando corações, hein! E agora, quem poderia ser? Será que é o Tomás ou o Jonas ou então o Ricardo?

- Magali! Por favor.

- Ah, vai me dizer que você não está curiosa?

- Claro que estou né, mas pode ser também alguém de fora do banco. Vai saber?

- É, é possível. Mas acho que é de alguém daqui de dentro mesmo. Não sossegarei enquanto não descobrir... Oba, adoro isso!

Suspirei fundo. O que fazer com Magali? Dai-me paciência, Senhor. Pelo menos ela conseguia me distrair. Magali saiu e pedi para uma das estagiárias providenciar água num vaso que eu tinha para colocá-las, pois às vezes comprava flores para mim mesma para enfeitar minha mesa. Dava quase para esconder-me atrás do buquê. Sorri. Quem será que me mandou? Não queria, mas tinha de admitir que adorei recebê-lo. Que mulher não gostava de receber um belo buquê? Seria um homem que mandou ele ou.... muito melhor, seria uma mulher? Minha curiosidade estava a mil. Alguém estaria apaixonado por mim? Ai ai ai... quem seria? E assim, toda curiosa, passei a manhã. Estava chegando a hora do almoço e eu ficando nervosa. Já era quase meio-dia.

De repente, vi Cláudia vindo em minha direção. Ela estava linda, seus olhos verdes pareciam querer aprisionar os meus. Ela estava com um belo sorriso nos lábios.

- Bom dia, Roberta.

- Bom dia, Cláudia. Cumprimentei-a sorrindo. Impossível resistir ao seu sorriso. Meu coração pulava dentro do peito. Minhas mãos suavam.

- Humm... Que rosas lindas! Cláudia falou encantada.

- Ganhei de um admirador.

- Um admirador? Que legal. Um namorado ou pretenso namorado?

Ri. – Não, não é. É de um admirador secreto.

- Um admirador secreto! Uau! E como está se sentindo ao ser admirada secretamente por alguém?

- Curiosa. Disse e acabei rindo. Ela riu também.

- Vamos almoçar? Ela convidou-me.

- Vamos sim, só vou pegar minha bolsa.

Peguei a bolsa e saímos rumo ao elevador. Pensei que fosse estar mais nervosa do que já estava, mas de alguma forma o episódio das rosas deixou-me mais calma. Ao entrarmos no elevador lembrei-me de como nossa história começou. Meu coração batia acelerado. Tinha mais gente no elevador. Acabei olhando para ela e ela me sorriu e fiquei vermelha. Droga, aos trinta anos eu ainda ficava vermelha. Ai, que raiva!

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Quando entramos no elevador, instantaneamente lembrei-me do nosso primeiro beijo. Olhei para Roberta e sorri para ela. Ela ficou vermelha na hora. Amei vê-la assim. Minha vontade foi de beijá-la nesse instante, mas não poderia fazer isso porque, além de assustá-la, tinha mais gente no elevador. O jeito foi segurar a vontade que veio e forte! Saímos do elevador e em seguida do prédio. Olhei para Roberta.

- Bom, você tem preferência por algum restaurante? É que eu nem sei mais quais tem aqui por perto. Disse sorrindo para Roberta.

- Tem dois bons aqui. Podemos ir no Plaza, a variedade é maior.

- Perfeito. Então vamos nesse.

O restaurante era bem pertinho. Entramos, escolhemos uma mesa e nos servimos. O garçom veio pedir o que queríamos para beber e ambas pedimos um suco.

- Roberta, você não imagina como fiquei feliz ao saber que você foi efetivada no banco.

- Imagine a felicidade que foi para mim na época. Eu já estava toda preocupada porque teria que procurar outro estágio ou emprego.

- Imagino sua felicidade sim. E sua mãe, como ela está?

- Dona Sandra está muito bem. Aposentou-se recentemente e está feliz. Agora está com planos de fazer alguma outra coisa que lhe tome o tempo que sobrou. Ela não sabe ficar parada.

- Vai ser bom para ela se ocupar. E seus irmãos? Lembro-me vagamente deles.

- O Juninho casou já tem três anos e em breve terei um sobrinho.

- Isso é legal. Vai ser titia. Falei rindo.

- Vou. Roberta riu também. – O Carlos estuda e trabalha, ainda não casou e diz que não quer nem saber disso por enquanto.

- E ele está estudando o quê?

- Está estudando engenharia mecânica.

- Corajoso. Falei rindo. - Qual a idade deles hoje? Perguntei. Adorava olhar para seus olhos azuis. Eram lindos!

- O Juninho está com vinte e sete anos e o Carlos está com vinte e três.

- E você? Está estudando ou fazendo alguma coisa assim?

- Eu? Roberta disse e riu.

Que vontade de beijar suas covinhas. Pensei.

- Não tô fazendo nada. É de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Roberta disse.

- Ah, Roberta, mas tá namorando, não é? Imagine se uma mulher linda como você vai ficar sozinha. Perguntei sorrindo e encarando seu olhar. Ela baixou os olhos, mas senti tristeza neles. Cheguei a me arrepender de ter perguntado.

- Não, não tenho ninguém. Roberta disse apenas, sem me olhar. Subiu seu olhar, me encarou e perguntou: - E você, Cláudia, está namorando?

- Não, mas estou à procura. Disse rindo.

- É... hummm... boa sorte então. Acho que tem uma pessoa interessada em você.

- Em mim? E quem seria? Perguntei curiosa.

- Ah, não vou lhe dizer. Você é esperta o suficiente para perceber. Roberta falou sorrindo com cara sapeca.

- Vai me deixar curiosa, né?

- Vou.

- Isso não se faz. Disse com carinha de choro.

- Ah, Cláudia. Até parece que você não percebeu as intenções dela.

- Dela? Quem? Fiz-me de desentendida. Eu sabia que ela estava falando da pegajosa da Milena.

- Não vou dizer quem é, tá. Falou e cruzou os braços.

- Ok. Soltei uma risada. – Vou ter que usar meus conhecimentos em desvendar mistérios e descobrirei. A-há, mas não esqueci, você tem um admirador secreto. Ao falar isso, Roberta arregalou os olhos rindo. – Ou pensa que eu me esqueci? Já descobriu quem é?

- Não e nem faço a mínima idéia. Mas bem que eu gostaria de saber quem é.

- Arrasando corações, hein.

- Coitadinha de mim, estou quietinha no meu canto.

- Mas... nem tem idéia mesmo?

- Não tenho mesmo, mas uma hora eu descubro. Roberta falou rindo.

E eu não cansava de admirar a sua beleza, estava cada vez mais encantada com Roberta. Como eu pude ser tão idiota e sair da vida dessa mulher adorável. Como me arrependia de ter feito isso, mas não podia mudar o passado. Queria reconquistá-la, mas precisava antes reconquistar a sua amizade, sua confiança. Continuamos conversando e nada do nosso passado em comum foi falado. Era como se ele não tivesse existido. Melhor assim. Recomeçar sem mágoas.

Terminamos o almoço e voltamos para o nosso trabalho. Eu estava feliz, tudo correu bem e rimos à beça. Foi maravilhoso.

sábado, 26 de abril de 2008

25 - Descobertas

O almoço transcorreu de forma agradável. Mas queria era que Roberta estivesse aqui comigo e não Milena. Estávamos voltando para o banco e resolvi dar uma parada numa banca de jornais. Comprei o exemplar de um jornal e em seguida fomos ao banco. Milena tinha um papo agradável, mas senti por várias vezes seu interesse por mim. Não queria alimentar nada e fazia-me de desentendida.

Estávamos entrando no prédio e nisso vi um homem saindo dele. Reconheci-o.

- Henrique? Chamei por ele.

- Sim. Ele se virou e me olhou por alguns segundos com cara de espantado. – Cláudia? É você?

- Sim, Henrique, sou eu. Falei sorrindo para ele.

- Meu Deus, mas que surpresa lhe rever, menina.

- Eu vou subindo. Depois nos falamos mais. Milena disse e seguiu banco adentro.

- Você tem algum compromisso agora? Perguntei para ele.

- Nada urgente. Ele respondeu sorrindo.

- Então vem cá. Agarrei o braço dele e o trouxe para dentro do banco.

- O que é isso? Um seqüestro? Henrique perguntou-me rindo.

- Considere-se seqüestrado então. Ri também. – Quero conversar com você. Podemos?

- Claro, Cláudia.

- Então vamos para minha sala. Teremos mais privacidade lá.

Dito isso, seguimos em direção aos elevadores. Fomos até a minha sala. Nos sentamos no sofá.

- Aceita um cafezinho? Perguntei a ele.

- Não, obrigado. Acabei de tomar um com a Roberta e se tomar mais um vou ficar elétrico o dia todo. Riu.

- Você estava com a Roberta?

- Sim, almoçamos juntos.

Senti um alívio imenso quando ouvi ele dizer isso. Sinal de que Roberta não tinha almoçado comigo porque realmente tinha um compromisso e que não foi uma simples desculpa.

- E o que você está fazendo da vida, Henrique?

- Trabalhando e muito. E antes que você me pergunte eu me casei.

- Casou? Perguntei surpresa.

- Sim, tomei juízo. Caímos na gargalhada.

- E quem foi o felizardo? Ou você mudou de time?

- Ihhh... Nada de mudar de time. Casei-me com Rafael. Apresentar-lhe-ei qualquer dia destes.

- Adoraria conhecê-lo para saber quem fisgou esse coraçãozinho rebelde aí.

- E você, se casou?

Dei um longo suspiro. – Sim, mas já me descasei.

- Então me conta.

Contei para ele minha aventura de ter-me casado com Antonia, dos problemas enfrentados depois e do meu receio de que ela aparecesse aqui por Curitiba.

- Uau, pelo visto essa Antonia é um chiclete, hein.

- Pior, meu amigo, muito pior, mas eu quero é saber de alguém...

- Já sei, você quer saber da Roberta?

- Exato.

- Antes, me responda uma coisa. Por que você, depois que foi embora, nunca mais ligou para ela? Nem para mim? Disse isso e fez uma carinha de choro.

- Ô dó. Ri dele. – Foi o seguinte, eu não tinha intenção de cortar definitivamente meus laços com Roberta. Queríamos que tivéssemos ficado amigas, mas ela reagiu muito mal quando disse que nosso relacionamento teria que para por ali. Ela nem deixou me explicar porque eu agia dessa forma.

- Ela ficou tão abalada, Cláudia. Por meses ela chorou por você.

- Eu imagino. Minha vontade era levá-la comigo, mas ela era menor de idade. Hoje com dezoito anos já se é maior de idade, mas naquela época só com vinte e um anos. Me diz Henrique, como eu poderia pedir para ela largar tudo, a família, a faculdade, sendo menor de idade e ir embora comigo?

- É, eu nunca soube disso. Realmente seria complicado.

- Roberta não deixou que eu explicasse meus motivos. Eu não poderia simplesmente desestruturar a vida dela. E se ela se arrependesse? O que eu faria? Ela era uma menina ainda.

- É, agora eu entendo você. Mas você ainda não disse por que não manteve contato.

- Eu sempre quis manter contato, mas a reação de Roberta com o rompimento me fez ver que seria pior se continuássemos em contato. Sei lá, na época passava pela minha cabeça que ela poderia largar tudo e vir atrás de mim. Eu não queria que as coisas fossem dessa forma. Então me mantive afastada. E depois o tempo passou e achei que ela tivesse saído do banco e nunca quis perguntar por ela, tanto que tive uma imensa surpresa ao vê-la trabalhando aqui.

- Ela também teve uma surpresa enorme ao saber que você estava voltando.

- Mas ela gostou de saber?

Henrique me olhou e ficou analisando-me, cheguei a ficar constrangida por ter perguntado.

- Eu... diria... que ela não esperava te rever. Que você fosse um fantasma do passado.

- Eu vou te contar uma coisa Henrique. Talvez você não acredite em mim, mas eu nunca deixei de amar Roberta. Mesmo quando me casei com Antonia, nunca deixei de pensar nela. E ao reencontrá-la aqui, este sentimento voltou com força total.

- Cláudia, lhe desejo boa sorte, porque você vai precisar de muita se quiser reconquistar Roberta.

- Por que você diz isso? Perguntei sem entender o que ele queria dizer.

- Roberta não quer se envolver com mais ninguém. Não concordo com isso, mas é a decisão dela.

- Mas por que isso? Perguntei mais intrigada ainda.

- Não sei se deveria falar, mas acho que seja bom você saber.

- Você está me assustando Henrique.

- Calma. Há dois anos, Roberta teve um baque muito forte na vida dela. Ela quase morreu de tristeza.

- O que aconteceu?

- Roberta também se casou com uma mulher, a Cristina, e pelo que eu sei viviam muito bem, felizes. Estavam casadas há quatro anos e infelizmente Cristina sofreu um acidente de carro, ficou na UTI e veio a falecer.

- Oh! Levei minhas mãos ao meu rosto e lágrimas vieram aos meus olhos.

- Roberta quis morrer junto. Não deixei um dia sequer ela no primeiro ano. Tinha que vigiá-la, tamanho desespero tinha tomado conta dela. Há um ano ela se reergueu, mas tomou uma decisão na vida dela.

- Decisão? E qual foi?

- Nunca mais se envolver com ninguém.

- O quê? Perguntei perplexa.

- Por isso lhe desejo boa sorte ao querer reconquistar Roberta, porque você vai precisar de muita.

- Meu Deus, eu jamais poderia imaginar isso, mas ela não pode se fechar assim pra vida.

- E você acha que eu não vivo dizendo isso para ela. Canso de dizer. Queria tanto que ela se apaixonasse de novo... Disse e me olhou e deixou a fala em suspenso. – A-há, tá aí. Já sei o que vou fazer.

- Credo, assim você me assusta, Henrique.

- Você ama Roberta, não é?

- Sim, muito.

- Roberta, eu acho... não tenho certeza, deve ainda sentir algo por você, então...

- Então o quê, Henrique?

- Vou mexer meus pauzinhos e vou unir vocês duas de novo! Henrique falou todo eufórico.

- Você... você... faria isso pela gente? Perguntei surpresa e feliz com essa possibilidade.

- Mas é claro. Quero ver Roberta feliz de novo. O que acha?

- A-d-o-r-e-i. Era tudo o que eu queria.

- Então toca aqui. Estendeu-me a mão e apertamos nossas mãos. – Vocês vão ficar juntas se depender de mim. Agora, que Roberta não sabia disso senão ela me mata, hein.

- Com certeza, ela nunca saberá.

- Perfeito. Agora eu preciso ir. Disse e pegou um cartão de visitas. – Este é o meu telefone, qualquer coisa me ligue, mas olha se eu atender e falar qualquer coisa estapafúrdia é porque Roberta está do meu lado, tá.

- Tá bom. E aqui está o meu.

Nos abraçamos e trocamos beijinhos no rosto.

- Até mais, Claúdia.

- Até, Henrique.

Ele saiu e fiquei olhando para o seu telefone como se fosse o bilhete premiado da mega-sena. Não conseguia acreditar que tinha encontrado um aliado que poderia ajudar-me a colocar Roberta de novo em minha vida. Eu estava radiante.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

24 - Reconhecendo o terreno

Eram dois ou três departamentos por andar. Resolvi ir pelas escadas mesmo. Ao passar pelo corredor que dava acesso aos elevadores, passei em frente aos banheiros e não pude deixar de sorrir ao lembrar que Roberta e eu sempre dávamos um jeitinho de namorarmos neles. Cheguei até a porta de acesso aos departamentos. Era toda de vidro e bem larga. Fiquei ali alguns segundos olhando, através da porta, para o meu antigo lugar de trabalho. De repente deu-me uma saudade imensa. Trabalhei anos ali. Suspirei.

- Bom dia, Grande Chefe.

Virei-me assustada para ver quem era. Magali. Não pude deixar de rir. Grande Chefe era o termo que usávamos naquela época para nomear o chefe geral da Regional.

- Magali! Que ótima surpresa lhe ver por aqui.

Demos um enorme abraço. Estava feliz por reencontrá-la. Não chegamos a ser amigas na época, mas éramos ótimas colegas de trabalho.

- Como você está? Perguntei para Magali.

- Estou bem. Pensei que não iria visitar os pobres mortais colegas de trabalho.

- É o que eu estou fazendo agora. E deixa de bobagem, que história é essa de pobres mortais? Eu estava aqui parada, olhando para o meu antigo departamento. Sabe que bateu uma certa saudade.

- É mesmo? Ah, mas você deve ter trabalhado em vários lugares e ficou com saudades justamente daqui?

- É porque foi aqui que tudo começou. É como se fosse um lugar mágico, sabe.

- Sei. Magali falou rindo.

Olhei para ela e ri também. Magali era muito divertida.

- E como estão as coisas por aqui?

- Bom, tirando o fato da minha chefa que gosta de pegar no meu pé porque diz que eu falo demais, posso dizer que tudo está ótimo.

Quando ela disse isso não pude deixar de rir muito. Pelo visto Magali continuava a mesma tagarela e curiosa de sempre. Tá aí, se você quiser saber o que acontece no prédio todo, pergunte à Magali. Ela saberá com certeza!

Conversamos mais algumas coisas até ela tocar no nome da Roberta e não deixei escapar a oportunidade de saber alguma coisa a mais dela.

- Me diga uma coisa, a Roberta se casou?

- Olha, que eu saiba não. Eu acho que ela está solteira, mas ela não é de falar da vida pessoal dela e por mais que eu tente saber ela não me diz nada. Não fala dos namorados, na realidade não fala de ninguém. Sempre vem um rapaz aqui e toma um cafezinho com ela ou saem para almoçar juntos, é um tal de Henrique, mas acho que não é namorado não, porque eles se cumprimentam com beijinhos no rosto.

- Henrique! Lembro-me dele. Ele era amigo dela na época da faculdade. Deve ser este. Falei e pensei: Humm... parece-me então que está sozinha. Bom, muito bom saber disto. Um belo sorriso teimava em despontar em meus lábios.

- É, deve. Mas há uns dois anos teve um lance estranho com ela...

- Lance estranho? Como assim? Perguntei extremamente curiosa. Será que tinha acontecido algo grave com Roberta? Pensei.

- Bom, de repente ela antecipou as férias dela na época e ficou muito abatida. A impressão que dava é que vivia chorando pelos cantos.

- É mesmo? Perguntei ainda mais curiosa. O que será que tinha acontecido com Roberta? Pensei.

- Sim e inclusive chegou a ficar com depressão. Foi o que eu fiquei sabendo. E esse amigo dela, o Henrique, vinha praticamente todos os dias ver como ela estava. Não sei o que aconteceu. Cheguei até a perguntar para ela, mas não quis me dizer, apenas falou que eram coisas dela e que só estava passando por uma fase difícil. Ela ficou assim, abatida, por alguns meses, até que voltou a ficar normal, mas eu percebi que ela ficou mais reservada. Realmente eu não sei o que aconteceu.

- Deve ter sido algo bem grave para ela ter ficado assim.

- É, deve, mas ela nunca quis dizer o que era. Até imagino que deve ter sido doença ou até mesmo morte na família, ou então algum fora de um namorado, sei lá.

- É, pode ter sido algo assim mesmo, já que, pelo que você me diz, ela chegou até a entrar em depressão. Magali, o papo tá bom, mas tenho que visitar os departamentos. Vou fazer uma visitinha para sua chefa. Disse e fui saindo.

- Cuidado com a Milena, hein. Magali falou.

- Por quê? Voltei e perguntei curiosa.

- Humm... não sei se devo falar.

- Você, Magali, achando que não deve falar alguma coisa. Deve estar doente. Falei rindo. – Ajoelhou agora tem que rezar. Falei brincando.

- Tá bom. Olha, ouvi um papo aí de que ela gosta de mulher, tá.

- Sério? Perguntei quase rindo. Já tinha sacado qual era a de Milena no dia da reunião.

- Sério, Cláudia. Se cuida, hein.

- Podexá... já sou grandinha. Falei rindo.

Milena era uma mulher muito atraente. Se meu coraçãozinho não tivesse uma moradora permanente até poderia tentar algo com ela, mas isso estava totalmente fora de cogitação, ainda mais com Roberta aqui, pertinho de mim. Nem pensar!

Saí e fui em direção à mesa de Milena, ela estava ao telefone e quando me viu abriu aquele sorriso maravilhoso que ela tinha. Logo ela encerrou a ligação e me cumprimentou.

- Bom dia, Cláudia. Que prazer a sua visita.

- Bom dia, Milena. Estou circulando para ver os departamentos.

- Bom, então deixe eu lhe mostrar o meu. Disse isso e agarrou meu braço e passou a me mostrar o lugar, mas esse eu já conhecia bem, pois era o que eu tinha trabalhado antes.

Eu sabia que no mesmo andar era o departamento de Roberta. Eram separados por divisórias e, volta e meia, eu olhava para a porta dele para ver se a via. Milena ainda estava agarrada ao meu braço, ou melhor, pendurada. Ela estava me dizendo algumas coisas quando senti aquela sensação estranha de alguém me olhando. Virei meu pescoço e vi Roberta passando, vindo do elevador e me olhando, aliás, vendo Milena quase me agarrando. Não sei por que, mas não gostei dela ter me visto assim. A sensação era como se eu estivesse fazendo algo errado, e ainda por cima o olhar que eu senti dela foi de reprovação. Mas, caraca, eu não estava fazendo nada de errado, só a outra que estava literalmente pendurada em meu braço. Mas não gostei.

Mais um tempinho passou, Milena apresentou-me várias pessoas, algumas conhecidas e depois fui ao departamento seguinte, o de Roberta.

Ela estava na sua mesa analisando alguns papéis. Fiquei observando-a por alguns segundos, admirando sua beleza, até que ela levantou seus olhos e me viu. Senti meu corpo tremer todo. Fui em sua direção, minhas pernas pareciam não querer me obedecer.

- Bom dia, Roberta. Falei presenteando-a com meu melhor sorriso.

- Bom dia, Cláudia. Falou séria, sem me sorrir.

Fiquei triste por não ganhar seu belo sorriso. Amava ver suas covinhas.

- Eu... Estou fazendo um “tour” pelos departamentos e gostaria que você me apresentasse o seu. Pode ser?

- Claro, Cláudia. Só me dê um minuto para eu terminar de resolver uma coisa e já te dou toda atenção.

- Ok. Eu lhe espero. Disse. Espero-lhe a vida inteira, minha princesinha. Mas como escalar essa muralha que você construiu, hein? Pensei um pouco triste.

Roberta conversou com algumas pessoas, deu algumas ordens e depois se voltou para mim.

- Vamos? Ela me disse encarando-me. Queria me perder no céu do seu olhar.

- Sim, vamos.

E assim, passou a apresentar-me o departamento financeiro, foi prática e objetiva e em momento algum me sorriu. Eu sentia-me triste por dentro. Não queria que ela me jogasse confetes, não era nada disso, mas desejava que ela estivesse sendo um pouco mais simpática comigo. Até um estranho ela trataria com mais simpatia. Estava sentindo-me péssima. Percebi que não seria nada fácil aproximar-me dela. Magali tinha razão, Roberta estava muito reservada e em nada parecia aquela menina alegre de riso fácil que um dia tive o prazer de conhecer.

Apresentou-me tudo, novos rostos e novamente alguns conhecidos. Estávamos perto da porta que dividia os departamentos. Olhei para o relógio e já era quase meio-dia. Eu já estava com fome. Tive uma idéia. Por que não tentar, não é?

- Roberta, gostaria de almoçar comigo hoje? Perguntei encarando-a e dando meu melhor sorriso e torcendo para que ela aceitasse o meu convite.

- Alm... Almoçar? Hoje? Perguntou-me parecendo assustada. Acho que ela não esperava por esse convite.

- Sim, aceita?

- Eu.. ah... não posso, hoje já... tenho compromisso. Disse-me dando um leve sorriso.

- E amanhã? Pode ser? Continuava sorrindo para ela. Se tinha uma coisa que eu era, era ser insistente. Uma hora ela teria que aceitar.

- Amanhã? Eu... é... tá bom. Amanhã eu posso.

Ufa! Achei que ela fosse dizer que tinha compromisso também. Eu estava pulando de alegria por dentro.

- Ótimo. Então amanhã almoçamos juntas.

- Humm... Almoço. Desculpe-me por ouvir a conversa de vocês, mas se quiser uma companhia para hoje estou disponível, Cláudia. Milena apareceu do nada se oferecendo para almoçar comigo.

- É.. Ok. Almoçamos juntas hoje, então.

Como era que a gente torcia o pescoço de pessoas chatas, hein? A última pessoa que eu queria como companhia era Milena. Droga!

Despedi-me de Roberta e Milena saiu em minha companhia. Fomos em direção a um dos restaurantes que tinha nas proximidades do banco. Milena era uma mulher simpática, mas senti que estava querendo marcar muito a presença dela comigo. Adoraria isso, se não estivesse de quatro por Roberta.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Não se acostumem!!!

Olá queridas leitoras,

Como eu entendo perfeitamente a agonia de querer saber o que vai acontecer logo na estória, então resolvi postar um capítulo extra hoje, o 23.
Mas, não se acostumem. rsrs... Vai ser só esse.
Tenham um ótimo dia.
Beijos
Gatafield

23 - Feliz da vida

Estava deitada em minha cama, pensando nos acontecimentos do dia. Não foi fácil! Reencontrar-me com Cláudia não fora nada fácil. Senti-me extremamente nervosa com este fato. Quando me encaminhei para a sala de reuniões e a vi, senti meu coração explodir dentro do peito de tanto que batia acelerado. Ela estava linda como sempre fora. Rever o brilho de seus olhos verde foi mágico. Alguém me chamou e mentalmente agradeci por isso, pois quebrou o momento e eu estava hipnotizada por ela. Logo Otávio chamou e apresentou-me a ela, minhas pernas pareciam que eram feitas de chumbo, tive que fazer um esforço tremendo para chegar até ela. Procurei manter-me calma, como se fosse possível eu conseguir ficar calma num momento desses. Sorri para ela. Não resisti. Não queria ter sorrido, queria mostrar-me séria, mas não consegui. Ela me reconheceu, mas isso significaria alguma coisa? Humm... Acho que não, mas senti certa surpresa da parte dela. Acredito que ela não esperava me rever ali. Bom, esta foi a impressão que tive.

Durante a reunião, procurei ao máximo não olhar para ela, senão o que ela iria pensar... que eu estava interessada nela? Nem pensar. Mas confesso que quando percebia, estava eu lá, olhando para ela. Nossos olhares se cruzaram várias vezes. E nesses momentos sentia arrepios em meu corpo. O que estaria se passando na cabeça dela nesses momentos? Tinha esta curiosidade.

Assim que a reunião acabou, tratei logo de sair dali. Aproveitei que um colega saiu, despedi-me de todos e fui junto. A maioria ficou lá “puxando o saco”. Num momento da reunião ela disse que falaria com cada um no decorrer dos próximos dias. Agora eu estava ansiosa e nervosa com a possibilidade desta conversa. Não sei como seria. Só sei que seria apenas nós duas. Ai ai ai.

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Meu Deus, não sei como consegui sobreviver a essa reunião sem ter tido um infarto, um treco, ou qualquer coisa do gênero. Reencontrar, rever Roberta trabalhando no banco não estava nem nos meus mais loucos sonhos. Fiquei sem chão. Fiquei sem ação. Essa foi a sensação que tive. Por um instante cheguei a pensar que estava tendo uma miragem. Delírio mesmo. Sempre acalentei o desejo de reencontrá-la, mas não esperava que fosse assim... de sopetão!

Mas o mais legal era que eu adorei esta surpresa. E que surpresa! Eu estava feliz por saber que Roberta conseguira se efetivar no banco e que crescera na carreira. Ela sempre fora dedicada com o trabalho. Posso dizer que vê-la como chefe de departamento não me surpreendia, pois ela sempre fora competente no que fazia e se estava exercendo esta função era porque fez por merecer.

Como seria ter ela por perto novamente? Estava sentindo-me uma adolescente, só de pensar que amanhã ou qualquer dia poderia revê-la ficava de pernas bambas. Ah, Roberta, se você soubesse o poder que tinha comigo. Ela deveria estar casada ou ter namorada ou namorado, quem sabe? De toda forma, eu estava hiper feliz. Precisava saber se ela estava comprometida com alguém. Mas como descobrir isso? Descobriria uma maneira. Acho que essa noite não iria conseguir dormir, já estava rolando na cama por horas. Só sabia de uma coisa... estava feliz!

Quarta-feira de manhã. Fui ao banco cantarolando, felicíssima. Cheguei ao meu andar, cumprimentei Rebeca sorrindo e fui para a minha sala. Fiz alguns telefonemas e logo depois chamei Rebeca.

- Rebeca, vem aqui, por favor.

- Sim, Cláudia.

Rebeca entrou em minha sala. Ficou de pé em frente a minha mesa e pedi para ela se sentar.

- Rebeca, preciso que você providencie para mim algumas coisas.

- Sim, Cláudia. Quais são elas?

- Bom, primeiro eu quero que você faça para mim uma relação com o nome, endereço residencial e telefones, inclusive celulares, de todos os chefes de departamentos e gerentes das agências.

- Providenciarei. E para quando você quer estas informações?

- Humm... Pode ser até sexta-feira.

- Verei com o pessoal dos Recursos Humanos.

- Beleza. Quero também que você providencie para sexta-feira da semana que vem um almoço com todos os chefes de departamento.

- E tem preferência por algum lugar.

- Faz tanto tempo que saí daqui. Nem sei mais dos lugares para sair.

- Que tipo de restaurante você prefere? Uma churrascaria, um a lá carte, um...

- Isso, uma churrascaria. Tem idéia de alguma boa?

- Bom, eu costumo ir na churrascaria Espeto de Ouro. O lugar é bom.

- Ei, eu me lembro dela. Não fica meio fora de mão.

- É um pouco, mas podemos ver outra.

- Não, façamos assim: fale com o pessoal e pergunte o que acham desse lugar, se eles toparem vamos nessa ou outra que sugerirem. Ah, lembrei-me de Santa Felicidade, uma cantina italiana, quem sabe? Mas veja isso ainda esta semana, que é para dar tempo de reservar os lugares.

- Ok. Cláudia. Pode deixar comigo. Mais alguma coisa?

- Humm... Por enquanto é só isso. Se eu lembrar de mais alguma coisa eu te chamo. Obrigada.

- Com licença. Rebeca disse e saiu da sala.

Eu precisava “passear” pelos departamentos, ver e rever o pessoal e iria começar isso pelo meu antigo departamento, o administrativo. Quem será que ainda estava por lá?

22 - Meu Deus... É ela!

Cheguei à minha mesa de trabalho e esforcei-me ao máximo para conseguir concentrar-me nas minhas tarefas. Eu estava nervosa. Magali fez-me o favor de avisar que a “Grande Chefe” só viria à tarde. Mas saber disso não me ajudou em nada, pois o reencontro seria inevitável. Por que, depois de tantos anos, sentia-me nervosa assim? Não conseguia entender, pois nossa história era passado morto e enterrado. Eu não deveria ficar afetada desta forma. Não mesmo. A manhã passou lenta. Chegou o horário de almoço e eu não sentia a menor fome, parecia que eu tinha uma bola dentro do estômago. Que raiva disso! Mas tinha que alimentar-me, senão ficaria com fome mais tarde.

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O meu grande dia chegou. Acordei feliz da vida, pronta para o meu retorno. Peguei o carro e fui até o Parque Barigüi para dar uma bela caminhada. Isso era muito bom. Esta era uma das coisas que eu adorava em Curitiba, seus belos parques. Caminhei bastante e já cansada retornei ao meu apartamento e tomei um banho demorado, daqueles bem revigorantes. Revi alguns pontos do que eu abordaria na reunião e logo em seguida fiz uma refeição leve.

Fui para o banco. Estava sentindo um frio enorme na barriga. Acho que eu estava um pouco nervosa. Não sabia quem eu iria reencontrar. Ao chegar nele, encaminhei-me para a minha nova sala. Apresentei-me para Rebeca, minha secretária, era uma mulher super simpática. Conversei com ela algumas coisas. Conheci minha nova sala e em seguida fomos para a sala de reuniões.

Ao chegarmos lá, já tinham duas pessoas. Reconheci o homem como sendo Otávio, um colega da época que tinha trabalhado aqui. Recebeu-me todo alegre e deu-me os parabéns pela conquista profissional. A mulher não conhecia, Otávio apresentou-me como sendo Milena, chefe de um dos departamentos. Uma bela mulher, com um sorriso lindo. Olhou profundamente nos meus olhos, mantendo o seu sorriso. Retribuí seu sorriso e ficamos os três conversando. Mais algumas pessoas chegaram. Mais alguns rostos conhecidos. Seriam oito pessoas ao todo.

De repente meu coração parou, vi uma mulher loira, cabelos de cachinhos, com magníficos olhos azuis. Roberta! Não pode ser ela. Mas era ela! Fiquei sem ação. Ela se aproximou e uma das pessoas chamou a sua atenção. Ouvi chamarem o seu nome. Fiquei estática, com o coração aos pulos, observando-a. Ela sorri para a pessoa e suas covinhas apareceram.

- Cláudia. Cláudia.

- Hããnnn...

- Aconteceu alguma coisa? Otávio me perguntou.

- Não... não aconteceu nada. Tentei sorrir.

- Nossa, de repente você ficou branca, até parece que viu um fantasma.

É, posso dizer que vi um fantasma. Pensei. Será que eu estava tendo alucinações? Roberta seria real ou fruto da minha imaginação? Era real, ela estava mais mulher, mais bela ainda.

- Você está bem? Otávio perguntou-me novamente.

Olhei para ele e dei um sorriso.

- Estou bem sim. Não aconteceu nada.

- Acabou de chegar a Roberta. Deixe-me apresentá-la a você. Disse isso e foi até Roberta.

Será que Otávio esqueceu que Roberta tinha sido minha estagiária? Pensei.

- Olá, Roberta. Por favor, vem aqui, quero lhe apresentar a nossa nova chefa.

- Olá, Otávio. Roberta disse e veio em minha direção.

Meu coração pulava loucamente no peito. Minha garganta secou. Ela olhou-me nos olhos e deu um sorriso. Quase enfartei.

- Cláudia, esta é Roberta, chefe do departamento financeiro. Otávio falou.

- Olá, Roberta. Tudo bem? Cumprimentei-a com um aperto de mão, senti o calor de sua mão, nem sei como consegui falar sem gaguejar.

- Olá, Cláudia. Tudo bem sim e com você? Roberta disse sorrindo.

Perdi-me no seu lindo sorriso. Que saudades eu senti do seu sorriso, do brilho dos seus olhos.

- Ei... Agora me lembro. Vocês duas já se conhecem. Otávio falou rindo.

- Já nos conhecemos sim, Otávio. Respondi sorrindo. – Roberta foi minha estagiária na época.

- Isso mesmo. Agora eu me lembro. Ele disse.

- Pessoal, a reunião vai começar agora. Rebeca anunciou a todos.

Olhei mais uma vez para Roberta, ela estava falando com Otávio. Não conseguia acreditar que a tinha reencontrado. Sempre desejei que isso acontecesse, mas não achei que fosse ser assim tão rápido. Jamais imaginei que ela tivesse sido efetivada. Nunca perguntei sobre ela para ninguém. Não saber dela ajudava-me a suportar a dor da distância que tinha sido imposta por mim. Sentia um misto de alegria e nervoso. Encaminhei-me para o meu lugar à mesa e dei início à reunião. Tinha que fazer um esforço tremendo para não me perder no que eu queria falar. Não sei como seria estar perto dela novamente. Meu coração batia tão alucinado que parecia que eu tinha um tambor dentro do peito. Tinha que controlar para não ficar olhando para ela. Admirando-a.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

21 - Lar doce lar

Ah, como eu amava respirar o ar fresco de Curitiba, muito mais limpo. Mas também querer compará-lo com o de São Paulo era covardia, não era? Estava de volta na minha cidade amada. Nos últimos dias estive envolvida com minha mudança. Ainda bem que não vendi meu apartamento quando fui embora, apenas o aluguei. Agora voltava a morar nele. Tudo estava dando certo. Sentia que esta era uma nova etapa em minha vida e que seria muito melhor. Estava radiante, minha vontade era de cantar e dançar, tamanha felicidade estava sentindo.

O apartamento estava pronto. Tudo organizado. Uma etapa cumprida. Amanhã me apresentaria no banco. Iria somente na parte da tarde e já tinha solicitado para que Rebeca, minha secretária, providenciasse tudo para a reunião que eu teria com os chefes de departamento da Regional, e no dia seguinte a esse teria reunião com os gerentes da agências. Sempre gostei de desafios e voltar ao lugar onde comecei minha carreira era, não só um desafio para mim, como um imenso prazer. Iria rever muitos colegas, conhecer novos. Seria ótimo. Doze anos, esse foi o tempo que fiquei fora daqui. Nossa, muita coisa aconteceu. Algumas boas, outras nem tanto, mas acho que valeu a pena no final das contas. Exceto não estar com Roberta.


Recostei-me no sofá e fechei os olhos. Na realidade eu nunca vendi este apartamento porque ele tinha um imenso valor sentimental para mim. Nunca consegui desfazer-me dele. Foi aqui que vivi uma linda história de amor. Sei que parece loucura isso, mas quando entrei no apartamento parecia que tudo aquilo que eu tinha vivido com Roberta tivesse acontecido ontem. Senti-me como se fosse vê-la a qualquer momento, tamanha intensidade das sensações que me assolavam.

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Estava em casa, deitada no sofá e tentava prestar atenção ao que passava na televisão, mas não conseguia. Saber do retorno de Cláudia acabou com meu dia. Não consegui me concentrar mais em nada. Gostaria que não fosse ela, que a Magali estivesse enganada, mas era fato, ela estava voltando.

Queria que Cristina estivesse aqui comigo. Como ela me fazia falta. Adorava nossos papos, ela me fazia rir muito. Mas esse desejo era impossível. Olhei para o telefone e senti que precisava conversar com alguém. Peguei-o e fiz uma ligação.

- Alô.

- Henrique?

- Betinha? É você?

- Sou eu, Rique.

- Tudo bem contigo, menina?

- Na... não, Rique. Falei começando a chorar.

- Oh, minha querida. O que lhe aconteceu? Quer que eu vá aí?

- Quero. Você pode vir? Falei chorando.

- Posso sim, já tô chegando. Até mais.

- Até.

Desliguei o telefone e desabei num choro compulsivo. Sentia-me num completo abandono, como se estivesse sozinha no mundo. Sentia falta de aconchego, de carinho. Não queria admitir, mas eu sentia falta de um amor, de alguém para compartilhar minha vida, tornar meus dias mais felizes e outros dias um pouco chatos... já que a felicidade não era constante.

Em menos de vinte minutos Henrique chegou. Eu devia estar com uma cara horrível, com os olhos vermelhos de tanto chorar. Nos abraçamos e fiquei nesse aconchego um bom tempo. Um ombro amigo, era o que eu estava precisando neste momento.

- O que foi que aconteceu, Betinha? Quer me falar?

Olhei para ele e balancei a cabeça em sinal afirmativo. Fomos nos sentar no sofá. Desliguei a televisão, só estava incomodando mesmo. Ele olhou para mim e sorriu.

- Betinha, o que lhe aconteceu? Não, não me diga, posso imaginar. Disse e olhou-me rindo. – A sua chefa é um canhão. Acertei?

Não resisti e ri com ele. Só mesmo o Rique para me fazer rir nessa hora.

- Não, Rique, não é um canhão, mas posso lhe afirmar que é uma bomba.

- Peraí, agora eu que não estou entendendo nada. Bomba? Como assim?

- Depois lhe digo. Você não vai acreditar mesmo.

- É por isso que você está chorando?

- É por tudo.

- Tudo?

- Sinto-me sozinha, perdida. Sinto falta da Cristina. Às vezes tenho vontade de sumir, desaparecer do mapa.

- Betinha, sei que é difícil superar a perda de um amor, ainda mais como foi, mas você tem que ser forte.

- Eu sei, Rique, mas é tão difícil. Lágrimas escorriam pelo meu rosto.

- Sabe, quando eu pego no seu pé dizendo que você tem que amar de novo, é sério isso que eu falo. A Cristina sempre vai estar aí, dentro do seu coração, mas você tem que permitir a entrada de alguém que possa lhe fazer feliz também. Não se feche assim. Você tem uma vida inteira pela frente. Não se negue amar de novo, Roberta. O amor nos faz tão bem. Deixa-nos leves, deixa-nos bobos. Falou e riu.

Não resisti e ri também. Bobos. Fazia tempo que não me sentia assim.

- Você agora está melhor, Betinha?

- Estou, Rique. Obrigada por ter vindo. Eu te amo, sabia.

- Claro que sim. Sou irresistível!

- Bobo. Caímos na gargalhada. Rique era muito bobo mesmo.

- Agora me diz sobre a sua chefa bomba. Estou curioso.

- Rique, você não vai acreditar nessa. Sabe quem é a nova chefa?

- Não, e você continua me matando de curiosidade. Fala logo, Betinha!

- É a... Cláudia!

Ele ficou me encarando de queixo caído. Nem piscava.

- Você tá brincando? Falou por fim.

- Não estou.

- A Cláudia? A “sua” Cláudia?

- Ô, Rique... ela não é “minha”, ok.

- Uau... Inacreditável. E como foi?

- Como foi o quê?

- Oras, o reencontro de vocês duas.

- Não a vi ainda.

- Não?

- Não, só vou vê-la amanhã.

- Ihhh... Eu queria ser uma mosquinha pra ver isso. Henrique disse rindo.

Olhei para ele fuzilando-o.

- Calma, não precisa me olhar assim. Ele disse.

- Eu nem tenho idéia de como vai ser. Falei suspirando.

- Como você está se sentindo com a iminência desse reencontro?

- Eu estou muito nervosa, não devia, mas estou. Depois que eu soube disso não consegui concentrar-me mais em nada.

- Bom, acho que deve ser natural... ou não. Falou rindo.

Fuzilei-o de novo com o olhar. Tinha horas que me dava vontade de dar uns tapas no Henrique.

- Você ainda sente algo por ela? Rique quis saber.

Olhei para ele e suspirei. Eu estava suspirando muito ultimamente.

- Não sei, Rique. Sempre tive curiosidade de saber como ela estava, se estava com alguém, essas coisas. Mas nunca soube de nada. Quando ela foi embora, nunca me ligou, nunca manteve contato comigo.

- Poxa, ela sumiu do mapa, né?

- Foi. O que se passa na minha cabeça é que nunca fui importante para ela. Só fui mais uma mulher na vida dela. Falei sentindo uma tristeza imensa no coração.

- Pensa assim não. Ânimo, Betinha. Isso foi há anos. Hoje você é uma mulher feita. E olha, se eu gostasse da fruta casava com você, hein. Rique falou rindo.

- Seu bobo. Falei rindo também. – E como está o Rafael?

- Tá bem, mas está todo enrolado no trabalho dele. O chefe saiu de férias e “sobrou” para ele.

- Vixe, coitado. Diga a ele que mando um beijo.

Conversamos mais um pouco e logo depois Henrique foi embora. Desejou-me sorte no dia de amanhã. Fui para cama e tentei dormir, mas não consegui. Estava muito ansiosa com o fato de revê-la.

De manhã, levantei-me da cama, tomei um banho demorado para espantar o sono que agora teimava em aparecer. Vesti-me e passei o perfume que eu adoro. Estava pronta. Tomei um rápido café da manhã e saí para o trabalho, pronta para a bomba que estava para estourar.

terça-feira, 22 de abril de 2008

20 - O destino gosta de brincar

Domingo à noite. Desde a morte de Cristina que eu não me interessava por ninguém. Eu tinha medo. Medo de entregar-me, de pular de cabeça dentro de uma nova relação e novamente sofrer. Nas duas vezes que amei, nas duas vezes sofri. Não queria mais isso para mim. Meu medo era maior que a alegria de viver um novo amor. Preferia ficar sozinha, mas não era nada fácil porque às vezes batia uma vontade imensa de estar com alguém, de fazer amor, de trocar carícias. Mas meu medo falava mais alto que essa vontade. Não sei se algum dia me apaixonaria de novo por outra mulher, não sei como agiria se isso me acontecesse. Viveria o amor ou fugiria dele? Não tinha a resposta. Até agora o que fiz da minha vida foi me esconder. Raramente saía de casa e isso quando Rique conseguia me tirar daqui. Ontem à noite foi divertido, fomos a um barzinho bem legal e ainda bem que desta vez o Rique não me “arrumou” ninguém. Nas vezes anteriores ele sempre me apresentava alguma mulher e eu tinha vontade de arrancar as orelhas dele quando ele fazia isso. Até olhei para algumas mulheres, mas nenhuma me interessou. Às vezes tinha a impressão de que meu coração morreu junto com Cristina. Sabia que era péssimo pensar assim, mas era o que eu achava. Pelo menos parecia ser isto. Se Rique não estivesse em minha vida, teria me sucumbido ao desespero. Teria enlouquecido. Ele era o meu grande irmão. Estava sempre ali para me ajudar, me proteger.

Estava com sede, levantei-me do sofá onde estava deitada. A TV estava ligada, mas não prestava atenção no que se passava nela. Eu estava perdida em meus pensamentos. Fui para a cozinha tomar água. De repente lembrei-me dela, de Cláudia. Às vezes pensava nela. Como será que ela estava? Onde estava? Sempre tive essa curiosidade de saber dela. Não devia ter, mas tinha. Na realidade ela nunca me saiu da minha cabeça, essa era a verdade. E se eu a visse agora, como eu reagiria? Como ela reagiria se me visse? Será que ela ainda se lembrava de mim? Acho que não, ela não me amava. Devia ter me esquecido completamente. Por incrível que pareça esse pensamento sangrava meu coração. Então melhor nem pensar. Vou dormir que amanhã começa mais uma semana de trabalho e iria conhecer a nova chefa. Esperava que fosse gente boa. E se fosse chata? Melhor nem pensar nisso.

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- Roberta, você não vai acreditar no que eu descobri. Magali se aproximou de Roberta toda afobada.

- Oi, Magali. O que foi desta vez? Perguntei já imaginando qual seria a nova fofoca. Lembram-se dela? Pois é, Magali continuava no banco também, mas sempre no mesmo departamento que não era mais o meu, mas era no mesmo andar e ela sempre fazia o “favor” de deixar-me a par das “novidades” que circulavam pelo banco. Às vezes perguntava-me quando era que ela realmente trabalhava.

- Sabe quem é a “Grande Chefe”? Ela perguntou-me.

O termo “Grande Chefe” era como chamávamos o chefe geral da regional.

- Não, não tenho a menor idéia de quem seja ela, Magali. Respondi sem curiosidade de saber.

- Que bom que você está sentada, Roberta.

- Por quê? Perguntei. Agora fiquei curiosa. Quem seria essa mulher, já que eu deveria estar sentada ao saber dela? Pensei.

- É a C-L-Á-U-D-I-A. Magali falou tão devagar como se soletrasse cada letra.

- Quê!? Perguntei não acreditando no nome que tinha ouvido. Será que era ela mesma? Cláudia estaria retornando à Curitiba? Mas a mulher que estava vindo não era de São Paulo? Ai, mas como sou idiota, ela poderia ter rodado pelo Brasil todo. Meu coração parecia querer sair pela boca, tamanha surpresa.

- Roberta, você está bem? Magali perguntou preocupada.

- Eu... Eu... estou sim, Magali.

- Você está branca, menina!

- Eu estou bem, Magali. É... Foi... só surpresa de saber que é a Cláudia. Mas tem certeza que é a Cláudia mesmo? Não poderia ser outra pessoa com o mesmo nome?

- É ela mesma, Roberta. Certeza absoluta. E deve estar chegando amanhã, inclusive vocês, chefes de departamento, vão ter uma reunião com ela à tarde.

- Não estou sabendo disso. Como...?

- Esqueceu que eu sei de tudo que acontece neste banco. Magali falou, sentindo-se importante.

- Não me esqueci. Falei tentando sorrir. Acho que meu sorriso saiu amarelo gema de tão forçado que foi. Eu estava nervosa com o que tinha acabado de saber.

- É que eu estava falando com a secretária da “Grande Chefe” e foi ela quem me falou. Vocês serão avisados ainda hoje.

- Poxa, a Cláudia. Quem diria, né?

- Lembro-me que vocês duas eram muito amigas. Isso pode contar pontos a seu favor.

- Pontos a meu favor? Como assim?

- Oras, vocês podem voltar a ser amigas como antes. Magali falou como se tivesse encontrado a solução para todos os meus problemas.

Quase gargalhei. Nós duas “amigas” como antes. Ah, Magali, se você soubesse. Isso era impossível de acontecer. Pensei.

- Não penso assim, Magali. Aquela amizade é passado e o que importa é o agora.

- Nossa, tem hora que você é muito razão pro meu gosto. Credo, Roberta. Pois eu estaria felicíssima.

- Magali, o passado é imutável. Agora eu preciso voltar a trabalhar.

- Ok, já tô indo. Até mais.

- Até, Magali.

Assim que Magali saiu, não consegui concentrar-me em mais nada. A lembrança do que vivi no passado com Cláudia não saía da minha cabeça. A sensação era de que tivesse acontecido ontem. Isso me assustou. Meu coração batia acelerado no peito só ao imaginar vê-la de novo. Teria que agir como se nada tivesse acontecido, até porque não esperava absolutamente nada da parte dela. Talvez nem se lembrasse mais de mim. Era isso, ficaria quieta em meu canto. A trataria como alguém que eu tinha acabado de conhecer. Seria melhor assim. Seria melhor para mim.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

19 - Retorno

Novembro de 2007.

Estava onde queria. Profissionalmente sentia-me realizada. Tinha acabado de pedir transferência para Curitiba. Soube que o chefe geral da Regional estava aposentando-se e esta era a oportunidade que eu esperava. Há algum tempo planejava isso. Hoje estava em São Paulo, mas sempre senti saudades da minha cidade querida. Retornei pouquíssimas vezes para ver minha família. A vida em Curitiba era mais prazerosa e era para lá que eu queria voltar.

Foi em Curitiba que eu fui feliz. Foi lá que tive meu verdadeiro amor. Tive que fazer uma escolha em minha vida, amor ou carreira. Não sei se ganhei. Só sei que nunca a esqueci. Nunca mais soube nada dela. Sentia saudades imensas, mas preferi não manter contato, pois seria o melhor para nós duas. Sei que se ligasse a faria sofrer mais e daria a Roberta falsas esperanças.

Namorei algumas mulheres, mas nunca me apaixonei como eu era apaixonada por Roberta. Roberta, minha princesinha, como você estava? Estaria com alguém? Será que ainda se lembrava de mim? Achava que não. A magoei tanto. Agi de forma cruel com ela. Não lhe dei escolha. Ela ficou com muita raiva de mim. Suspirei. Ela estaria agora com trinta anos. Devia estar uma mulher linda.

As escolhas da vida. Eu escolhi a carreira. Devia estar hiper feliz, mas eu sentia um vazio imenso dentro do meu peito. E isso me corroía a alma.

Nas minhas aventuras amorosas conheci a Antonia, com quem eu me casei. Um erro. Nosso relacionamento sempre foi aos “trancos e barrancos”. Mais brigávamos que outra coisa. Ela era muito possessiva, fato que acabava sufocando-me. Sempre prezei a liberdade, a minha e a de quem estivesse comigo. Sempre tive em mente que se alguém estivesse comigo era porque queria e não por obrigação. Ficamos casadas por dois anos. Terminei recentemente o relacionamento, mas ela não se conformava e me perseguia. Esse também era um dos motivos de eu querer sair de São Paulo. Queria paz!

Casar-me com Antonia foi meu maior erro. Não, foi meu segundo maior erro. Deixar Roberta foi meu maior e dolorido erro. Não gostava de admitir, mas ainda era apaixonada pela minha princesinha. Guardava no fundo do peito a vontade imensa que tinha de um dia reencontrá-la. Essa vontade era o que me acalentava, mas era algo tão... tão... improvável de acontecer. Improvável porque ela poderia não morar mais em Curitiba. Poderia estar casada. Poderia.... sei lá... eram tantas possibilidades ou realidade que nos separavam que acreditava ser isto impossível de acontecer. Bom, mas sonhar me era permitido e por isso tinha esperanças. Isso me dava forças de seguir adiante.

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Sábado à tarde no apartamento de Roberta.

- Ah, Betinha, por favor. Não aceito mais nenhuma desculpa sua para não querer se divertir.

- Rique... Tentei falar.

- Não, Betinha. Acorda pra vida mulher. Vai ficar apodrecendo em casa, é?

- Rique, eu não estou a fim de sair. Poxa!

- Escuta aqui, Roberta. Vou ser duro com você. Quem se foi dessa vida foi Cristina. Você está viva e muito bem viva. Precisa viver. Você está com trinta anos e é uma mulher linda, simpática, vitaminada e se acha que eu vou deixar você ficar em casa, você está é muito enganada, tá!

- Eu não quero ficar brava com você, Rique.

- Por favor, Betinha. Henrique me olhou com um carinho imenso. – Vamos sair. Ver gente. Vamos?

Soltei um suspiro e disse em seguida: - Ok. Você tem razão.

- Viva! Consegui! Henrique vibrou com a minha resposta afirmativa.

- Mas, olha... Com uma condição.

- Humpf... Tava bom demais. Que condição, Betinha?

- Não tente arrumar ninguém pra mim, tá.

- E desde quando eu faço isso? Henrique perguntou fazendo cara de desentendido.

- Desde que eu estou sozinha, seu dissimulado.

- Ai, desencana Betinha. Eu e Rafael vamos levar você para um lugar bem legal. Você vai amar!

- É, espero que seja legal mesmo. Sei que tô precisando mesmo me distrair. Minha vida só tem sido trabalho, trabalho e mais trabalho.

- Hummm... E por falar em trabalho, como é que está lá?

- Está bem. Ah, na semana que vem vamos ter chefa nova na área.

- Chefa nova? Uma mulher?

- Sim, pelo menos foi o que eu ouvi. Que é uma mulher que vem de São Paulo.

- Hummm...

- Nem pense, meu amigo. Tô fora.

- Credo, Betinha. Vai que a mulher é um arraso, assim tipo irresistível.

- E vai que é um canhão. Não quero ninguém, já lhe disse isso. Falei demonstrando uma certa tristeza em minha voz.

- Acho que vou fazer uma visita para você lá no banco semana que vem.

- Sei bem porque você quer ir lá. Quer ver a mulher, né seu safado! Falei voltando a sorrir. – Mas vou adorar a visita. Vai lá para tomar um cafezinho comigo.

- Vou sim, Betinha. Não perco essa por nada. Henrique levantou-se do sofá, deu-me uma beijoca na bochecha. – Tô indo. À noite passamos aqui para lhe pegar. Vamos jantar e depois vamos para a balada. Às vinte e uma horas está bom?

- Perfeito. Estarei esperando.

- Tchau, Betinha.

- Tchau, Rique.

Que a noite realmente fosse ótima. Pensei esperançosa.

domingo, 20 de abril de 2008

18 - Tem dia que gostaríamos que não existisse...

Cristina já estava há quatro dias na UTI e seu quadro de saúde não melhorava em nada. Eu antecipei minhas férias para poder ficar ao lado dela. Claro que não podia ficar, ela ainda estava na UTI. Meu coração sangrava de dor, de desespero. Ver a pessoa que você amava inerte numa cama de hospital era totalmente desesperador. Rezava todos os dias para que ela melhorasse. Eu não queria arredar o pé do hospital, mas Henrique dizia que ela estava na UTI e só poderíamos vê-la naqueles horários determinados, que não precisaríamos fazer plantão no hospital. Conseguiu me convencer, mas meu coração doía mais ainda ao ter que ficar longe dela.

Já era quarta-feira, o quinto dia e nada dela melhorar. Chegamos, eu e Henrique, para visitá-la no horário determinado. Estava uma correria na UTI. Não deixaram ninguém entrar. Fiquei desesperada. Todos que esperavam para ver seus entes queridos ficaram com o coração na mão. Soubemos que alguém tinha morrido. Senti meu coração ficar pequenininho. Meu Deus, que não fosse a Cristina. Não saberia viver sem meu amor ao meu lado. Novamente lágrimas escorreram pelo meu rosto. O médico saiu de dentro da UTI e perguntou pelos familiares de Cristina. Sua mãe estava lá. Ela entrou na UTI. Minhas pernas tremiam de desespero. Henrique me abraçava. Logo depois ela saiu chorando, olhou-me e disse-me que Cristina tinha acabado de falecer. Não agüentei e desmaiei de desespero.

Acordei depois de um tempo, sentada em uma cadeira de rodas com uma enfermeira tentando me reanimar. Olhei para Henrique que estava na minha frente e chorei, chorei muito. Ele se agachou na minha frente e abraçou-me e chorou também. Eu queria morrer. Meu amor tinha ido embora. Como viveria sem o sorriso dela? Sem ouvir a voz, o riso dela? Sem seu amor, seu carinho? Eu estava em estado de choque. Deram-me calmantes.

Os pais de Cristina cuidaram de providenciar o funeral. Infelizmente não nos dávamos muito bem. Eles achavam que eu tinha desvirtuado a garotinha deles. Não impediram que eu comparecesse ao funeral. Isso seria demais para mim. Foi horrível assisti-lo, mas o pior era saber que quando se voltava para casa você nunca mais veria a pessoa amada. Nunca mais iria conversar com ela. Nunca mais. Isso era o que mais doía. Os papos interrompidos. Os planos interrompidos. Uma vida interrompida de forma trágica. A ausência. Nunca mais era forte demais. Era avassalador.

Henrique ficou todo tempo ao meu lado. Eu não queria comer, nem água eu queria beber. O que eu queria era morrer também. A dor era insuportável. Como viver sem ela? Como?

O tempo passou, a dor parecia não querer diminuir. Henrique conseguiu que eu entendesse que tinha que continuar vivendo. A “minha” vida não acabou. Mas cada dia era difícil de suportar. Ele estava sempre por perto, sempre me apoiando. Acho que se ele não estivesse por perto eu teria morrido junto com Cristina.

O tempo seguia implacável. Fazia um ano que tudo tinha acontecido. Não me desesperava como antes, mas o vazio no meu coração continuava lá. Decidi que não queria mais amar ninguém. Era sofrimento. Sempre que amei sofri. Não queria mais isso. Isso marcou demais meu coração. Queria viver, eu precisava. Eu sei que precisava levar a minha vida em frente, mas eu não queria mais amar. Não queria mais sofrer. Chega! E com esse pensamento mais um ano se passou.

Já eram dois anos sem a presença da minha amada Cristina. Dois anos sem amor. Dois anos sem alegria. Era assim que eu me sentia... vazia de amor. Era assim que eu levava minha vida.

A música que me acompanhava era esta. Refletia tudo o que eu sentia.

Legião Urbana - Vento No Litoral

De tarde quero descansar, chegar ate a praia e ver
Se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora

Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que tenho mais saudade,
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?

Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo
E quando eu vejo o mar,
Existe algo que diz,
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem

Já que você não está aqui,
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem?

- Ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora


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sábado, 19 de abril de 2008

17 - Por que coisas horríveis acontecem?

- Eu não quero que você vá. Eu falava triste, abraçada a ela.

- Eu preciso, meu amor. Serão só quatro dias, passa rápido. Cristina me dizia olhando docemente em meus olhos.

- Passa nada. Disse tristinha por ficar sem ela por esses dias.

- Passa sim e deixe de ser chorona, Roberta. Na sexta-feira à noitinha estarei de volta e teremos o fim de semana inteirinho só para nós duas. E, além disso, nos falaremos ao telefone todos os dias, então deixe de drama, meu anjo.

Olhei para ela com minha carinha triste e disse: - Tá bom. Uma boa viagem pra você. Estarei aqui lhe esperando ansiosamente.

- Obrigada. Deixe-me ir que já estou atrasada. Deu-me um beijo apaixonado e foi embora para Paranaguá.

Fiquei ali triste, não queria que ela tivesse que ir trabalhar estes dias fora. Às vezes acontecia isso. Ela era solicitada para trabalhar nas agências da regional. Mas eu não gostava disso e pronto. Preferia ela aqui, sempre do meu ladinho.

Arrumei-me e fui para o meu trabalho. O dia custou a passar. Engraçado isso. Quando ela ficava fora o dia parecia ter trinta e seis horas. Sobrava tempo demais. Eu não gostava disso.

Enfim a sexta-feira chegou. Estava ansiosa, o dia custava a passar. Liguei várias vezes para ela na agência, ao ponto de receber uma bronca dela porque eu estava ligando demais. Mas era saudades, fazer o quê?

Terminou o expediente e fui para casa. Resolvi novamente fazer um jantar romântico para nós duas. Estava toda feliz preparando o tal jantar. O jantar enfim ficou pronto, logo ela estaria chegando.

Uma hora de atraso. Estava preocupadíssima. Liguei para seu celular e dava somente fora de área ou desligado. Devia estar na estrada ainda. Mais uma hora se passou, já estava desesperada e seu celular continuava dando fora da área de serviço. Meu Deus, o que estava acontecendo? Fiquei insistentemente ligando até que chamou. Alguém atendeu o celular dela. Era voz de homem. Senti meu corpo gelar.

- Alô. Disse a voz.

- Que.. quero falar com Cristina. Falei com a voz tremendo.

- Quem é?

- É... é... uma amiga dela.

- Moça, aqui quem está falando é o Capitão Tavares do corpo de bombeiros.

- Quê....

- Olha, desculpe-me por ter que dar-lhe esta notícia, mas infelizmente sua amiga teve um acidente de carro...

- Quê... Eu não conseguia falar, sentia uma mão pesada apertando minha garganta e lágrimas copiosas corriam pelo meu rosto.

- Ela foi encaminhada para um hospital em Curitiba. Ela falou e me passou o nome do hospital.

- Como ela está? Perguntei desesperada.

- No hospital poderão lhe dar maiores detalhes. Vá para lá.

- Ok. Tô indo.

Peguei minha bolsa e saí com o carro em disparada para o hospital. Chegando lá, fui direto à recepção e perguntei por ela. Disseram-me que os médicos a estavam operando. Eu estava em completo desespero. Liguei para Henrique, que veio rápido. Quando ele chegou abraçou-me e eu caí em prantos. Rafael veio junto também. Ficamos horas ali esperando alguma notícia. Já era alta madrugada e nada. Até que apareceu um homem vestido de branco, que devia ser o médico. Veio falar com a gente.

- Vocês são parentes da Cristina?

- Somos amigos. Henrique falou. - Já avisamos a família dela. Eles não são daqui da cidade.

- Ótimo que os tenha avisado. O estado de saúde dela é delicadíssimo. Acabamos de operá-la. Ela teve perfuração no abdômen e uma pancada muito forte na cabeça. Está em coma e na UTI. Como eu disse, seu estado é grave.

- E o que podemos fazer? Henrique perguntou.

- Apenas rezar por ela. O que nós podíamos fazer já estamos fazendo.

- O que de fato aconteceu? Como foi o acidente? Henrique perguntou, já que eu estava completamente muda, paralisada. Eu estava petrificada com as informações que nos foram dadas.

- Não sei detalhes, mas parece-me que um carro entrou na estrada direto e que ela tentou desviar e perdeu o controle do carro, capotando-o várias vezes. O pessoal do Corpo de Bombeiros poderá dar-lhes maiores detalhes do ocorrido.

- Obrigado, doutor. Henrique disse.

- Ok. Vocês poderão vê-la nos horários de visita, se informem na recepção. Uma boa noite para vocês. Disse isso e voltou por onde veio antes.

Eu estive o tempo todo abraçada ao Henrique. Eu estava chorando copiosamente. Nada fazia com que eu parasse. Cristina, meu amor... não me deixe, por favor. Eu pensava desesperada.

- Rafael, vou levar Betinha para a casa dela e vou ficar por lá até voltar amanhã para visitar Cristina. Ok?

- Ok. Rique. Ligue que eu também venho para cá.

- Combinado. Tchau.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

16 - A viagem

Mais um mês se passou. Era uma segunda-feira e eu estava em meu trabalho. Cristina me ligou.

- Oi, Cristina.

- Escuta, Roberta... Vou ter que viajar.

- Viajar? Como assim? Perguntei, eu não gostava quando ela tinha que viajar. Não gostava de ficar longe do meu amor.

- É, vou ter que ir a Paranaguá. Uma das funcionárias está de licença-maternidade e a outra que faz o serviço ficou doente. Vou ter que cobrir a agência nesta semana.

- Sério? Perguntei triste.

- Sim, viajo amanhã cedo e fico até sexta.

- Poxa, mas tem que ser você? Lamentei.

- É que eu entendo bem o serviço da funcionária que ficou doente, então o chefão designou-me para ficar lá por esta semana.

- É, fazer o que, né? Disse resignada, pois não gostava da idéia de ficar longe de Cristina, nem que fosse um único dia. – Se eu estivesse de férias iria contigo, mas não estou.

- Roberta! Serão apenas quatro dias. Você vai sobreviver sem mim. Cristina falou rindo.

- Eu sei, mas não gosto de ficar longe de você.

- Hummm... No fim de semana a gente tira o atraso. Cristina falou baixinho e imaginei a carinha safada que ela estava fazendo.

- Então o fim de semana será inteirinho nosso.

- Combinado. Preciso desligar, tenho muitas coisas para resolver aqui e à noite a gente se fala mais. Cristina falou e eu tinha vontade de ficar conversando mais com ela.

- Tá bom. Beijos.

- Beijos.

Desliguei o telefone e fiquei pensando no que eu iria fazer nestes quatro dias que Cristina iria ficar longe de mim. Acho que iria passar na locadora e pegar alguns filmes para assistir. É, iria fazer isso, porque ficar sozinha em casa não me animava muito.

- Roberta, quero saber se é assim que você quer esta planilha? Falou Kátia, minha estagiária.

- Deixe me ver. Peguei a planilha e olhei. – É isso mesmo. Quero que você carregue nela os dados diários. Faça-a apresentando os cinco dias da semana, ok?

- Ok, Roberta. Farei assim.

- Obrigada, Kátia.

Hoje eu exercia o cargo de chefe do departamento financeiro. Gostava de trabalhar nesta área. Adorava mexer com números. Olhei para Kátia e lembrei-me da época em que eu era estagiária. Era impossível lembrar-me desta época e não me lembrar de Cláudia. Repreendia-me quando lembrava dela. Essa história já foi há quase dez anos e ainda assim mexia comigo. Um saco isso. Ela nem devia mais se lembrar de mim e eu, volta e meia, ainda pensava nela. Droga. Precisava concentrar-me no presente. Este era o que importava. Era o que eu vivia aqui e agora que era o importante.

Tive uma idéia. Como Cristina viajaria somente amanhã de manhã, eu iria fazer um jantar romântico para nós duas. Depois que saísse daqui, daria um pulo no supermercado e compraria algumas coisas para o jantar e, claro, um bom vinho. Hummm... e quem sabe terminaríamos numa bela noite de amor. Só em pensar nessa possibilidade já me sentia toda excitada.

Terminei meu expediente e fui direto ao supermercado. Comprei o que eu precisava e fui para casa. Cristina ainda não tinha chegado. Preparei o jantar. Ela estava demorando a chegar. O jantar já estava pronto quando ela chegou em casa.

- Hummm... O que você está aprontando meu amor? Cristina chega por trás de mim me abraçando e beijando minha nuca. – Tá um cheirinho tão bom.

- Tô fazendo um jantar para nós duas.

- Uau... Você sempre me surpreende. Foi por isso que eu me casei com você. Falou rindo.

- É mesmo, sua interesseira? Disse isso e me virei para ela. Dei-lhe um beijo quente, molhado. Senti meu corpo se acender. – Vamos tomar um banho? Sugeri, beijando o seu pescoço.

- Hummm... Assim eu não resisto. Vamos sim.

Seguimos em direção ao banheiro, deixando nossas roupas pelo caminho. Cristina ligou o chuveiro e nos molhamos. Nos abraçamos com nossos corpos molhados, nossas mãos deslizavam pelo corpo da outra. Explorávamos-nos mutuamente. Nos beijávamos com desejo, com paixão. Eu estava molhada, e não era pela água do chuveiro que caía sobre nós. Era tesão mesmo. Cristina virou-me de costas e começou a beijar e mordiscar meus ombros, pescoço e nuca, enlouquecendo-me. Suas mãos percorriam minha barriga e passou pelo meu sexo intumescido de tesão. Gemíamos alucinadamente. Novamente me virou para ela, se abaixou. Levantou uma perna minha e a colocou sobre seu ombro e com sua boca tomou posse de meu paraíso. Gritei de prazer. Ela explorava-me habilmente com sua língua macia, arrancando-me gemidos, meu corpo vibrava de prazer e ela penetrou seus dedos em mim, levando-me a loucura total. Logo eu estava tremendo inteira de prazer num gozo explosivo. Intenso. Ela se levantou e amparou-me em seus braços, pois minhas pernas amoleceram. Logo depois continuamos nosso banho. Saímos do banheiro, nos vestimos e fomos nos deliciar com o jantar. Estava maravilhoso. Ouvimos um pouco de música, dançamos algumas e seguimos para o quarto para continuar nossa dança deliciosa do amor até saciarmos nossos corpos sedentos de amor.