O almoço transcorreu de forma agradável. Mas queria era que Roberta estivesse aqui comigo e não Milena. Estávamos voltando para o banco e resolvi dar uma parada numa banca de jornais. Comprei o exemplar de um jornal e em seguida fomos ao banco. Milena tinha um papo agradável, mas senti por várias vezes seu interesse por mim. Não queria alimentar nada e fazia-me de desentendida.
Estávamos entrando no prédio e nisso vi um homem saindo dele. Reconheci-o.
- Henrique? Chamei por ele.
- Sim. Ele se virou e me olhou por alguns segundos com cara de espantado. – Cláudia? É você?
- Sim, Henrique, sou eu. Falei sorrindo para ele.
- Meu Deus, mas que surpresa lhe rever, menina.
- Eu vou subindo. Depois nos falamos mais. Milena disse e seguiu banco adentro.
- Você tem algum compromisso agora? Perguntei para ele.
- Nada urgente. Ele respondeu sorrindo.
- Então vem cá. Agarrei o braço dele e o trouxe para dentro do banco.
- O que é isso? Um seqüestro? Henrique perguntou-me rindo.
- Considere-se seqüestrado então. Ri também. – Quero conversar com você. Podemos?
- Claro, Cláudia.
- Então vamos para minha sala. Teremos mais privacidade lá.
Dito isso, seguimos em direção aos elevadores. Fomos até a minha sala. Nos sentamos no sofá.
- Aceita um cafezinho? Perguntei a ele.
- Não, obrigado. Acabei de tomar um com a Roberta e se tomar mais um vou ficar elétrico o dia todo. Riu.
- Você estava com a Roberta?
- Sim, almoçamos juntos.
Senti um alívio imenso quando ouvi ele dizer isso. Sinal de que Roberta não tinha almoçado comigo porque realmente tinha um compromisso e que não foi uma simples desculpa.
- E o que você está fazendo da vida, Henrique?
- Trabalhando e muito. E antes que você me pergunte eu me casei.
- Casou? Perguntei surpresa.
- Sim, tomei juízo. Caímos na gargalhada.
- E quem foi o felizardo? Ou você mudou de time?
- Ihhh... Nada de mudar de time. Casei-me com Rafael. Apresentar-lhe-ei qualquer dia destes.
- Adoraria conhecê-lo para saber quem fisgou esse coraçãozinho rebelde aí.
- E você, se casou?
Dei um longo suspiro. – Sim, mas já me descasei.
- Então me conta.
Contei para ele minha aventura de ter-me casado com Antonia, dos problemas enfrentados depois e do meu receio de que ela aparecesse aqui por Curitiba.
- Uau, pelo visto essa Antonia é um chiclete, hein.
- Pior, meu amigo, muito pior, mas eu quero é saber de alguém...
- Já sei, você quer saber da Roberta?
- Exato.
- Antes, me responda uma coisa. Por que você, depois que foi embora, nunca mais ligou para ela? Nem para mim? Disse isso e fez uma carinha de choro.
- Ô dó. Ri dele. – Foi o seguinte, eu não tinha intenção de cortar definitivamente meus laços com Roberta. Queríamos que tivéssemos ficado amigas, mas ela reagiu muito mal quando disse que nosso relacionamento teria que para por ali. Ela nem deixou me explicar porque eu agia dessa forma.
- Ela ficou tão abalada, Cláudia. Por meses ela chorou por você.
- Eu imagino. Minha vontade era levá-la comigo, mas ela era menor de idade. Hoje com dezoito anos já se é maior de idade, mas naquela época só com vinte e um anos. Me diz Henrique, como eu poderia pedir para ela largar tudo, a família, a faculdade, sendo menor de idade e ir embora comigo?
- É, eu nunca soube disso. Realmente seria complicado.
- Roberta não deixou que eu explicasse meus motivos. Eu não poderia simplesmente desestruturar a vida dela. E se ela se arrependesse? O que eu faria? Ela era uma menina ainda.
- É, agora eu entendo você. Mas você ainda não disse por que não manteve contato.
- Eu sempre quis manter contato, mas a reação de Roberta com o rompimento me fez ver que seria pior se continuássemos em contato. Sei lá, na época passava pela minha cabeça que ela poderia largar tudo e vir atrás de mim. Eu não queria que as coisas fossem dessa forma. Então me mantive afastada. E depois o tempo passou e achei que ela tivesse saído do banco e nunca quis perguntar por ela, tanto que tive uma imensa surpresa ao vê-la trabalhando aqui.
- Ela também teve uma surpresa enorme ao saber que você estava voltando.
- Mas ela gostou de saber?
Henrique me olhou e ficou analisando-me, cheguei a ficar constrangida por ter perguntado.
- Eu... diria... que ela não esperava te rever. Que você fosse um fantasma do passado.
- Eu vou te contar uma coisa Henrique. Talvez você não acredite em mim, mas eu nunca deixei de amar Roberta. Mesmo quando me casei com Antonia, nunca deixei de pensar nela. E ao reencontrá-la aqui, este sentimento voltou com força total.
- Cláudia, lhe desejo boa sorte, porque você vai precisar de muita se quiser reconquistar Roberta.
- Por que você diz isso? Perguntei sem entender o que ele queria dizer.
- Roberta não quer se envolver com mais ninguém. Não concordo com isso, mas é a decisão dela.
- Mas por que isso? Perguntei mais intrigada ainda.
- Não sei se deveria falar, mas acho que seja bom você saber.
- Você está me assustando Henrique.
- Calma. Há dois anos, Roberta teve um baque muito forte na vida dela. Ela quase morreu de tristeza.
- O que aconteceu?
- Roberta também se casou com uma mulher, a Cristina, e pelo que eu sei viviam muito bem, felizes. Estavam casadas há quatro anos e infelizmente Cristina sofreu um acidente de carro, ficou na UTI e veio a falecer.
- Oh! Levei minhas mãos ao meu rosto e lágrimas vieram aos meus olhos.
- Roberta quis morrer junto. Não deixei um dia sequer ela no primeiro ano. Tinha que vigiá-la, tamanho desespero tinha tomado conta dela. Há um ano ela se reergueu, mas tomou uma decisão na vida dela.
- Decisão? E qual foi?
- Nunca mais se envolver com ninguém.
- O quê? Perguntei perplexa.
- Por isso lhe desejo boa sorte ao querer reconquistar Roberta, porque você vai precisar de muita.
- Meu Deus, eu jamais poderia imaginar isso, mas ela não pode se fechar assim pra vida.
- E você acha que eu não vivo dizendo isso para ela. Canso de dizer. Queria tanto que ela se apaixonasse de novo... Disse e me olhou e deixou a fala em suspenso. – A-há, tá aí. Já sei o que vou fazer.
- Credo, assim você me assusta, Henrique.
- Você ama Roberta, não é?
- Sim, muito.
- Roberta, eu acho... não tenho certeza, deve ainda sentir algo por você, então...
- Então o quê, Henrique?
- Vou mexer meus pauzinhos e vou unir vocês duas de novo! Henrique falou todo eufórico.
- Você... você... faria isso pela gente? Perguntei surpresa e feliz com essa possibilidade.
- Mas é claro. Quero ver Roberta feliz de novo. O que acha?
- A-d-o-r-e-i. Era tudo o que eu queria.
- Então toca aqui. Estendeu-me a mão e apertamos nossas mãos. – Vocês vão ficar juntas se depender de mim. Agora, que Roberta não sabia disso senão ela me mata, hein.
- Com certeza, ela nunca saberá.
- Perfeito. Agora eu preciso ir. Disse e pegou um cartão de visitas. – Este é o meu telefone, qualquer coisa me ligue, mas olha se eu atender e falar qualquer coisa estapafúrdia é porque Roberta está do meu lado, tá.
- Tá bom. E aqui está o meu.
Nos abraçamos e trocamos beijinhos no rosto.
- Até mais, Claúdia.
- Até, Henrique.
Ele saiu e fiquei olhando para o seu telefone como se fosse o bilhete premiado da mega-sena. Não conseguia acreditar que tinha encontrado um aliado que poderia ajudar-me a colocar Roberta de novo em minha vida. Eu estava radiante.
sábado, 26 de abril de 2008
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