Novembro de 1995.
Quase uma hora da tarde. O calor estava insuportável. Parecia que se estava dentro de uma sauna. Bom, acho que poderia considerar este ônibus como uma sauna. Sorri comigo mesma. O ônibus estava lotado, ainda bem que eu estava sentada, porque não gostava do esfrega-esfrega que existe dentro dos ônibus. Observava a paisagem que passava rápida pela janela. Estava nervosa, pois hoje seria meu primeiro dia de estágio. Iria estagiar em um grande banco. Seria a minha primeira experiência de trabalho. Como seria recebida? Será que gostariam de mim? Será que eu conseguiria fazer o meu serviço bem feito? Sorri. Nossa, eu estava cheia de dúvidas e muito nervosa. Acho que isso deve ser normal. Cheguei ao terminal de ônibus e o banco ficava a três quadras de distância. O sol estava implacável, fui andando pela rua procurando pela sombra. Morava em Curitiba, mas esse ano o verão estava prometendo ser daqueles.
Chamava-me Roberta, tinha apenas 18 anos e estava fazendo faculdade de administração. Estava fazendo o primeiro ano. Sempre tive este sonho. Um dia queria ganhar bem. Muito bem. Minha vida não era nada fácil. A grana era sempre curta. Sempre ouvi dizer que os universitários eram durangos e era a mais pura verdade, a não ser que fosse filhinho de papai. Haja dinheiro para tanto gasto. Comprar um livro nem pensar, era na base da fotocópia mesmo. Por isso, valorizava cada dia de aula como uma pequena vitória diária, pois sabia que muita gente sonhava em fazer uma faculdade e não tinha a menor condição financeira. Morava com meus pais. Ambos trabalhavam fora. Tinha dois irmãos, mas eram mais novos que eu. O que eu achava ótimo, senão iriam querer controlar a minha vida se fossem mais velhos.
Nunca namorei, aliás, até tentei, mas os rapazes não me interessavam. Beijei alguns. Sempre tive um olho comprido para as mulheres. Nos filmes, enquanto minhas amigas suspiravam pelo galã, eu secretamente suspirava pela mocinha ou pelo mulherão mesmo. Sorri. Nunca beijei uma mulher. Sonhava com isso. Tinha a maior curiosidade de saber como era o beijo de uma mulher. Uau! Um dia provaria os lábios femininos e quem sabe algumas coisinhas mais.
Cheguei no banco. Meu coração estava acelerado ante ao desconhecido. O banco era num prédio de seis andares. Fui informada que trabalharia no quinto andar. Não seria na agência, no atendimento ao público. Seria na parte administrativa do banco. Achava melhor assim. Lidar com público dava-me nervoso. A agência ficava no térreo e no primeiro andar. Nos demais andares ficava a administração regional do banco. Cheguei na recepção e informei meu nome e o motivo de estar ali. Recebi um crachá. Estava escrito “Provisório”. Bom, hoje vou ser a senhorita Provisório. Sorri com este pensamento bobo. Entrei no elevador e fui para o quinto andar. Não gostava de elevadores, tinha o maior medo de ficar presa neles.
Fui informada que o chefe do departamento era o Sr. Andrade. Esperava que fosse uma boa pessoa. Cheguei. O local era aberto com várias mesas dispostas de forma organizada. Deveria ter umas quinze pessoas ali. Aproximei-me de um homem e perguntei a ele quem era o Sr. Andrade e ele indicou-me um homem de uns quarenta anos, alto, muito bonito e que usava óculos. Fui até ele. Tremendo, é claro, continuava super nervosa.
- Você é o Sr. Andrade?
- Sim, sou eu. Disse-me sorrindo. – E você?
- Eu... Eu sou a Roberta, vim fazer o meu estágio.
- Oh, claro. Estávamos esperando-lhe, Roberta. Pronta para começar?
- Sim, estou. Falei sorrindo para ele. Estava sentindo-me mais calma. Ele parecia ser uma pessoa legal.
- Você vai trabalhar neste departamento, que é o administrativo. Tem 14 pessoas trabalhando aqui. Você vai auxiliar a Cláudia na parte de Recursos Humanos, mas primeiro vou apresentar-lhe ao pessoal. Vamos?
- Sim, vamos.
Fui apresentada a todo mundo. Um monte de rostos novos, parecia que eu não ia conseguir gravar o nome de todos. Fui muito bem recebida. Não estava mais tão nervosa. Ele deixou para me apresentar para a Cláudia por último. Levou-me até ela. Era uma mulher linda, alta, com belos olhos verdes e cabelos castanhos e compridos. Muito linda mesmo. De repente voltei a ficar nervosa. Ela encarou-me. Senti meu corpo tremer com a intensidade de seu olhar.
- Cláudia, esta é a Roberta, a sua nova estagiária. Sr. Andrade falou, apresentando-me a ela.
- Seja muito bem vinda, Roberta. Ela falou olhando-me e dando um sorriso cativante.
- Obr.. Obrigada, D. Cláudia. Disse. Eu e minha maldita mania de gaguejar quando eu ficava nervosa. Pensei.
- Nãnãnã... Nada de dona, assim você me faz sentir velha. Cláudia disse e riu. – Nem tenho trinta ainda.
- Des... Desculpe.
- Me chame apenas de Cláudia.
- Ta bom, Cláudia. Disse sorrindo para ela.
- Bom, Roberta, você vai trabalhar nesta mesa ao lado da mesa de Cláudia. Boa sorte menina. O Sr. Andrade disse e saiu.
- Obrigada. Respondi a ele e olhei para Cláudia, que pediu que eu sentasse a minha nova mesa de trabalho.
Meu Deus, eu iria trabalhar ao lado dessa mulher linda. Meu corpo estava tremendo de tão nervosa que eu estava. Não sei se meu coraçãozinho iria agüentar isso. Ele estava batendo tão descompassado.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
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Um comentário:
ai ai
Mais uma linda estória da Gatafield
Vamos, como sempre, dia-a-dia saborear cada capítulo.
Acho que adoraria ser a Cláudia, rs
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