Resolvi que não iria trabalhar na segunda, não estava com cabeça para nada, ainda mais que Cláudia deveria estar lá, pois na sexta-feira não se despediu de ninguém e eu não iria agüentar ver isso sem me desmoronar. Liguei e disse que estava indisposta, passando mal. Nunca tinha faltado. Era a primeira vez.
À noite fui para a faculdade. Estava com a tristeza estampada em minha face. Henrique me viu e percebeu. Veio até mim. Abraçou-me e levou-me para o nosso cantinho.
- O que aconteceu, Betinha?
- Ai, Rique. Ela vai embora. Falei já começando a chorar.
- Embora? Como assim? Henrique perguntou, não entendendo nada.
- Cláudia... vai embora... pra Salvador. Terminamos. Disse com cara de quem iria chorar.
- Quê?!
- Isso mesmo. Vai embora e me deixou. Disse isso e caí em prantos. Henrique me abraçou. Fiquei um tempo chorando e ele tentando me consolar.
- Betinha, por que ela fez isso? Henrique perguntou incrédulo e pensou: “Já tinha saído com as duas juntas e parecia que Cláudia era apaixonada pela Roberta”.
- Ela... Ela recebeu... uma promoção, e... ela não me ama. Falei gaguejando.
- Não lhe ama?
- Não, Rique, ela não me ama. Não como eu a amo. Não como eu queria que ela me amasse. Sabe, eu faria o impossível para ficarmos juntas, mas ela preferiu me deixar, e se dar bem na carreira dela dentro do banco.
- Betinha... Com sua mão levantou meu rosto para me olhar em meus olhos. - Se ela não lhe quis, não merece uma lágrima que você está derrubando. Vamos parar de chorar? Perguntou sorrindo, tentando levantar o meu astral.
- É, você tem razão. Ela não merece uma única lágrima minha. Disse dando um sorriso triste.
- Sei que isso dói, a gente quer morrer, mas um dia isso passa... e você vai encontrar um novo amor que lhe ame como você merece, Betinha.
- Obrigada, meu amigo. Tenho vontade de morrer mesmo. Falei enxugando as lágrimas. – Mas ela não merece meu amor. Um dia vou encontrar alguém que me ame igualmente com todo o amor que tenho no coração.
- Isso mesmo, Betinha. Vamos pra sala que o sinal já bateu.
Levantamos e fomos para a sala de aula. Tentava não chorar, tentava ser forte, mas doía muito. Consegui controlar as lágrimas até chegar em casa. Já no meu quarto desabei de novo. “Eu vou conseguir tirar você do meu coração, custe o que custar. De mim você nunca mais terá nada, Cláudia. Nada.” Disse para mim mesma.
No dia seguinte, terça-feira, cheguei no meu trabalho. Cumprimentei algumas pessoas e fui direto para minha mesa. Não a vi. Acho que nunca mais a veria de novo. Teria de me acostumar a essa nova realidade. Tinha tomado uma decisão... iria afundar-me nos estudos e no meu trabalho, quem sabe assim eu conseguisse me esquecer dela.
- Oi, Roberta. Como você está? Magali veio até mim e perguntou.
- Oi, Magali, estou melhor. Respondi tentando dar um sorriso.
- O que você teve ontem, menina?
- Eu não estava bem, estava indisposta e com dor de cabeça.
- Hummm... Poxa, você perdeu a despedida de Cláudia.
- Despedida? Falei fingindo surpresa.
- Sim. Ela recebeu uma promoção e agora vai trabalhar em Salvador. Tivemos uma festinha ontem aqui, uma pena que você não pode vir.
- É, pelo visto perdi mesmo. Falei nem um pouco animada. O que eu queria era ficar sozinha. Meu coração doía ao lembrar-me dela. Novamente senti vontade de chorar. – E como ela estava? Nem sei por que perguntei isso, saiu automaticamente. Acho que de alguma forma queria saber se ela estava triste como eu.
- Ela estava feliz. Radiante. Também, receber uma promoção dessa não dá para perder, tem que ir mesmo. E era o que ela queria. Vocês eram tão amigas. Acho que você vai sentir falta dela.
- É, acho que vou sim. Esforcei-me em dizer e pedi licença, fui direto ao banheiro. Não agüentei e desabei num choro dolorido. Ela estava feliz. É, isso só me mostrava que ela não me amava mesmo, eu não significava nada para ela. Droga, eu vou esquecer-lhe, Cláudia. Eu sou forte, vou superar isso. Pensei.
Fiquei alguns bons minutos ali, resolvi voltar, senão Magali viria atrás de mim e do jeito que ela era curiosa iria querer saber o que estava acontecendo comigo. Lavei meu rosto várias vezes, e retornei a minha mesa. Concentrei-me no trabalho. Era o que merecia minha atenção agora.
Na semana seguinte veio um funcionário transferido para assumir o lugar de Cláudia. Um rapaz franzino, chamado Alexandre, e muito simpático. E o tempo passou.
Já ia fazer um ano que estava fazendo o estágio e meu contrato estava para acabar. Estava triste por isto. Adorava trabalhar no banco. Só tinha mais duas semanas e estava preocupada, pois precisava procurar outra ocupação para mim. Não podia me dar ao luxo de ficar sem ganhar meu dinheiro.
- Roberta, o Sr. Andrade quer falar com você. Alexandre comunicou-me.
- Tá, vou lá falar com ele. Falei para Alexandre. O que será que ele queria comigo? Pensei. Na certa era pra dizer que o contrato estava terminando.
Cheguei até à mesa dele e ele pediu que eu puxasse uma cadeira e sentasse perto dele. Fiz isso.
- Roberta, quero lhe fazer uma pergunta. Você gosta de trabalhar aqui com a gente?
- Mas é claro que eu gosto, Sr. Andrade.
- Daqui duas semanas se encerra seu contrato de estágio com a gente. Certo, menina? Ele disse encarando-me.
- Certo, Sr. Andrade.
- Pois bem, suas avaliações foram excelentes, tanto as feitas pela Cláudia como as feitas pelo Alexandre. E resolvemos que vamos efetivar você como funcionária do banco. O que acha? Falou e ficou encarando-me.
Eu fiquei boquiaberta e com os olhos arregalados, não conseguia falar nada.
- Isso quer dizer que você gostou, não é? Ele me perguntou sorrindo.
- Sim... eu... muito obrigada, Sr. Andrade. Eu confesso que não esperava ser efetivada. Estou muito feliz.
- Você merece, Roberta. Você é uma estagiária exemplar e será uma funcionária exemplar também, não tenho dúvidas disso.
- Muito obrigada de novo. Falei rindo. Não cabia em mim de tanta felicidade.
- O Alexandre irá mostrar-lhe tudo o que você precisará providenciar para efetivarmos a sua contratação. Agora é com ele. Pode ir, menina.
Voltei para minha mesa feliz da vida. Conversei com Alexandre sobre todos os procedimentos para a minha contratação. Fui flutuando para a faculdade e contei a novidade para o Henrique. Claro que ele quis comemorar, nunca que ele ia deixar passar o momento.
De tudo o que me aconteceu, só a dor por amar Cláudia ainda dilacerava-me o coração. Não chorava tanto quanto antes, mas sentia uma saudade imensa dela. Gostaria de saber como ela estava. Será que já tinha me esquecido? Ela nunca me ligou, nenhuma vez. Será que já estava com outra pessoa? Eu nunca saberia. Meu coração doía de saudades. A única certeza que eu tinha era que amava ela ainda e com muita intensidade. Quem sabe um dia eu conseguiria esquecê-la e me apaixonasse por outra mulher, por alguém que valesse a pena. Era o meu alento.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
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