segunda-feira, 21 de abril de 2008

19 - Retorno

Novembro de 2007.

Estava onde queria. Profissionalmente sentia-me realizada. Tinha acabado de pedir transferência para Curitiba. Soube que o chefe geral da Regional estava aposentando-se e esta era a oportunidade que eu esperava. Há algum tempo planejava isso. Hoje estava em São Paulo, mas sempre senti saudades da minha cidade querida. Retornei pouquíssimas vezes para ver minha família. A vida em Curitiba era mais prazerosa e era para lá que eu queria voltar.

Foi em Curitiba que eu fui feliz. Foi lá que tive meu verdadeiro amor. Tive que fazer uma escolha em minha vida, amor ou carreira. Não sei se ganhei. Só sei que nunca a esqueci. Nunca mais soube nada dela. Sentia saudades imensas, mas preferi não manter contato, pois seria o melhor para nós duas. Sei que se ligasse a faria sofrer mais e daria a Roberta falsas esperanças.

Namorei algumas mulheres, mas nunca me apaixonei como eu era apaixonada por Roberta. Roberta, minha princesinha, como você estava? Estaria com alguém? Será que ainda se lembrava de mim? Achava que não. A magoei tanto. Agi de forma cruel com ela. Não lhe dei escolha. Ela ficou com muita raiva de mim. Suspirei. Ela estaria agora com trinta anos. Devia estar uma mulher linda.

As escolhas da vida. Eu escolhi a carreira. Devia estar hiper feliz, mas eu sentia um vazio imenso dentro do meu peito. E isso me corroía a alma.

Nas minhas aventuras amorosas conheci a Antonia, com quem eu me casei. Um erro. Nosso relacionamento sempre foi aos “trancos e barrancos”. Mais brigávamos que outra coisa. Ela era muito possessiva, fato que acabava sufocando-me. Sempre prezei a liberdade, a minha e a de quem estivesse comigo. Sempre tive em mente que se alguém estivesse comigo era porque queria e não por obrigação. Ficamos casadas por dois anos. Terminei recentemente o relacionamento, mas ela não se conformava e me perseguia. Esse também era um dos motivos de eu querer sair de São Paulo. Queria paz!

Casar-me com Antonia foi meu maior erro. Não, foi meu segundo maior erro. Deixar Roberta foi meu maior e dolorido erro. Não gostava de admitir, mas ainda era apaixonada pela minha princesinha. Guardava no fundo do peito a vontade imensa que tinha de um dia reencontrá-la. Essa vontade era o que me acalentava, mas era algo tão... tão... improvável de acontecer. Improvável porque ela poderia não morar mais em Curitiba. Poderia estar casada. Poderia.... sei lá... eram tantas possibilidades ou realidade que nos separavam que acreditava ser isto impossível de acontecer. Bom, mas sonhar me era permitido e por isso tinha esperanças. Isso me dava forças de seguir adiante.

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Sábado à tarde no apartamento de Roberta.

- Ah, Betinha, por favor. Não aceito mais nenhuma desculpa sua para não querer se divertir.

- Rique... Tentei falar.

- Não, Betinha. Acorda pra vida mulher. Vai ficar apodrecendo em casa, é?

- Rique, eu não estou a fim de sair. Poxa!

- Escuta aqui, Roberta. Vou ser duro com você. Quem se foi dessa vida foi Cristina. Você está viva e muito bem viva. Precisa viver. Você está com trinta anos e é uma mulher linda, simpática, vitaminada e se acha que eu vou deixar você ficar em casa, você está é muito enganada, tá!

- Eu não quero ficar brava com você, Rique.

- Por favor, Betinha. Henrique me olhou com um carinho imenso. – Vamos sair. Ver gente. Vamos?

Soltei um suspiro e disse em seguida: - Ok. Você tem razão.

- Viva! Consegui! Henrique vibrou com a minha resposta afirmativa.

- Mas, olha... Com uma condição.

- Humpf... Tava bom demais. Que condição, Betinha?

- Não tente arrumar ninguém pra mim, tá.

- E desde quando eu faço isso? Henrique perguntou fazendo cara de desentendido.

- Desde que eu estou sozinha, seu dissimulado.

- Ai, desencana Betinha. Eu e Rafael vamos levar você para um lugar bem legal. Você vai amar!

- É, espero que seja legal mesmo. Sei que tô precisando mesmo me distrair. Minha vida só tem sido trabalho, trabalho e mais trabalho.

- Hummm... E por falar em trabalho, como é que está lá?

- Está bem. Ah, na semana que vem vamos ter chefa nova na área.

- Chefa nova? Uma mulher?

- Sim, pelo menos foi o que eu ouvi. Que é uma mulher que vem de São Paulo.

- Hummm...

- Nem pense, meu amigo. Tô fora.

- Credo, Betinha. Vai que a mulher é um arraso, assim tipo irresistível.

- E vai que é um canhão. Não quero ninguém, já lhe disse isso. Falei demonstrando uma certa tristeza em minha voz.

- Acho que vou fazer uma visita para você lá no banco semana que vem.

- Sei bem porque você quer ir lá. Quer ver a mulher, né seu safado! Falei voltando a sorrir. – Mas vou adorar a visita. Vai lá para tomar um cafezinho comigo.

- Vou sim, Betinha. Não perco essa por nada. Henrique levantou-se do sofá, deu-me uma beijoca na bochecha. – Tô indo. À noite passamos aqui para lhe pegar. Vamos jantar e depois vamos para a balada. Às vinte e uma horas está bom?

- Perfeito. Estarei esperando.

- Tchau, Betinha.

- Tchau, Rique.

Que a noite realmente fosse ótima. Pensei esperançosa.

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