Já era quarta-feira, o quinto dia e nada dela melhorar. Chegamos, eu e Henrique, para visitá-la no horário determinado. Estava uma correria na UTI. Não deixaram ninguém entrar. Fiquei desesperada. Todos que esperavam para ver seus entes queridos ficaram com o coração na mão. Soubemos que alguém tinha morrido. Senti meu coração ficar pequenininho. Meu Deus, que não fosse a Cristina. Não saberia viver sem meu amor ao meu lado. Novamente lágrimas escorreram pelo meu rosto. O médico saiu de dentro da UTI e perguntou pelos familiares de Cristina. Sua mãe estava lá. Ela entrou na UTI. Minhas pernas tremiam de desespero. Henrique me abraçava. Logo depois ela saiu chorando, olhou-me e disse-me que Cristina tinha acabado de falecer. Não agüentei e desmaiei de desespero.
Acordei depois de um tempo, sentada em uma cadeira de rodas com uma enfermeira tentando me reanimar. Olhei para Henrique que estava na minha frente e chorei, chorei muito. Ele se agachou na minha frente e abraçou-me e chorou também. Eu queria morrer. Meu amor tinha ido embora. Como viveria sem o sorriso dela? Sem ouvir a voz, o riso dela? Sem seu amor, seu carinho? Eu estava em estado de choque. Deram-me calmantes.
Os pais de Cristina cuidaram de providenciar o funeral. Infelizmente não nos dávamos muito bem. Eles achavam que eu tinha desvirtuado a garotinha deles. Não impediram que eu comparecesse ao funeral. Isso seria demais para mim. Foi horrível assisti-lo, mas o pior era saber que quando se voltava para casa você nunca mais veria a pessoa amada. Nunca mais iria conversar com ela. Nunca mais. Isso era o que mais doía. Os papos interrompidos. Os planos interrompidos. Uma vida interrompida de forma trágica. A ausência. Nunca mais era forte demais. Era avassalador.
Henrique ficou todo tempo ao meu lado. Eu não queria comer, nem água eu queria beber. O que eu queria era morrer também. A dor era insuportável. Como viver sem ela? Como?
O tempo passou, a dor parecia não querer diminuir. Henrique conseguiu que eu entendesse que tinha que continuar vivendo. A “minha” vida não acabou. Mas cada dia era difícil de suportar. Ele estava sempre por perto, sempre me apoiando. Acho que se ele não estivesse por perto eu teria morrido junto com Cristina.
O tempo seguia implacável. Fazia um ano que tudo tinha acontecido. Não me desesperava como antes, mas o vazio no meu coração continuava lá. Decidi que não queria mais amar ninguém. Era sofrimento. Sempre que amei sofri. Não queria mais isso. Isso marcou demais meu coração. Queria viver, eu precisava. Eu sei que precisava levar a minha vida em frente, mas eu não queria mais amar. Não queria mais sofrer. Chega! E com esse pensamento mais um ano se passou.
Já eram dois anos sem a presença da minha amada Cristina. Dois anos sem amor. Dois anos sem alegria. Era assim que eu me sentia... vazia de amor. Era assim que eu levava minha vida.
A música que me acompanhava era esta. Refletia tudo o que eu sentia.
Legião Urbana - Vento No Litoral
De tarde quero descansar, chegar ate a praia e ver
Se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que tenho mais saudade,
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo
E quando eu vejo o mar,
Existe algo que diz,
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem
Já que você não está aqui,
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem?
- Ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
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