domingo, 27 de abril de 2008

26 - Surpresa

Estava em meu apartamento. Andava em círculos. Eu estava nervosa. Jamais esperava que Cláudia me convidasse para um almoço. Jamais! E amanhã ela queria almoçar comigo! Ai, meu Deus, como seria ficar frente a frente com ela? Eu conseguiria sobreviver? Por mais que eu tentasse agir de forma natural, por mais que eu não quisesse ficar nervosa, não tinha jeito, eu ficava nervosa. Até cheguei a gaguejar quando ela me convidou para almoçar. Que ódio!

A minha sorte era que eu já tinha compromisso com Henrique. Porque se fosse naquele momento eu simplesmente não conseguiria engolir a comida. Droga, eu não deveria sentir mais nada na presença dela, mas eu ficava nervosa demais. Droga, droga, droga. A minha intenção de manter-me o mais distante dela estava indo por água abaixo. Como seria esse almoço amanhã?

Dia seguinte. Quase não preguei o olho, estava com olheiras e tive que caprichar na maquiagem para disfarçar. Já estava em minha mesa de trabalho, tentando em vão concentrar-me, mas Cláudia estava em meus pensamentos muito mais do que eu gostaria que estivesse. Aliás, não era nem para ela estar em meus pensamentos. Por que ela estava mexendo tanto assim comigo? Ai, o almoço de hoje. Sentia um frio no estômago quando lembrava-me dele.

Estava tentando analisar um relatório quando senti a presença de alguém na frente da minha mesa. Levantei meus olhos e vi um imenso buquê de rosas vermelhas. Lindo! O entregador, um rapaz simpático, perguntou se eu era a Roberta, confirmei que sim. Então ele entregou-me as rosas. Fiquei com cara de boba olhando para aquele imenso buquê, sem entender nada. Nisso Magali se aproximou.

- Uauuu... Quando vi esse buquê fiquei imaginando quem ganharia ele. Até pensei que gostaria de ser eu!

- Pois é... Eu ganhei. Disse sorrindo.

- E quem mandou? Magali perguntou curiosa como sempre.

- Não sei ainda. Deixe-me ver o cartão.

Peguei-o e abri. Estava escrito: “Para uma linda mulher, com todo amor.” Não dizia quem mandou. Teria eu um admirador anônimo? Meu Deus, quem seria?

- E então, de quem é? Magali perguntou se roendo de curiosidade.

- Não sei.

- Como assim não sabe? Magali pergunta toda espantada.

- Não diz quem mandou.

- E o que diz o cartão?

- Magali! Deixe de ser curiosa!

- Não me deixe morrer de curiosidade, Roberta. Isso é maldade.

- Tome. Estendi o cartão para ela. – Leia.

- “Para uma linda mulher, com todo amor.” Uau, um admirador anônimo. Que legal! Aí, Roberta, arrasando corações, hein! E agora, quem poderia ser? Será que é o Tomás ou o Jonas ou então o Ricardo?

- Magali! Por favor.

- Ah, vai me dizer que você não está curiosa?

- Claro que estou né, mas pode ser também alguém de fora do banco. Vai saber?

- É, é possível. Mas acho que é de alguém daqui de dentro mesmo. Não sossegarei enquanto não descobrir... Oba, adoro isso!

Suspirei fundo. O que fazer com Magali? Dai-me paciência, Senhor. Pelo menos ela conseguia me distrair. Magali saiu e pedi para uma das estagiárias providenciar água num vaso que eu tinha para colocá-las, pois às vezes comprava flores para mim mesma para enfeitar minha mesa. Dava quase para esconder-me atrás do buquê. Sorri. Quem será que me mandou? Não queria, mas tinha de admitir que adorei recebê-lo. Que mulher não gostava de receber um belo buquê? Seria um homem que mandou ele ou.... muito melhor, seria uma mulher? Minha curiosidade estava a mil. Alguém estaria apaixonado por mim? Ai ai ai... quem seria? E assim, toda curiosa, passei a manhã. Estava chegando a hora do almoço e eu ficando nervosa. Já era quase meio-dia.

De repente, vi Cláudia vindo em minha direção. Ela estava linda, seus olhos verdes pareciam querer aprisionar os meus. Ela estava com um belo sorriso nos lábios.

- Bom dia, Roberta.

- Bom dia, Cláudia. Cumprimentei-a sorrindo. Impossível resistir ao seu sorriso. Meu coração pulava dentro do peito. Minhas mãos suavam.

- Humm... Que rosas lindas! Cláudia falou encantada.

- Ganhei de um admirador.

- Um admirador? Que legal. Um namorado ou pretenso namorado?

Ri. – Não, não é. É de um admirador secreto.

- Um admirador secreto! Uau! E como está se sentindo ao ser admirada secretamente por alguém?

- Curiosa. Disse e acabei rindo. Ela riu também.

- Vamos almoçar? Ela convidou-me.

- Vamos sim, só vou pegar minha bolsa.

Peguei a bolsa e saímos rumo ao elevador. Pensei que fosse estar mais nervosa do que já estava, mas de alguma forma o episódio das rosas deixou-me mais calma. Ao entrarmos no elevador lembrei-me de como nossa história começou. Meu coração batia acelerado. Tinha mais gente no elevador. Acabei olhando para ela e ela me sorriu e fiquei vermelha. Droga, aos trinta anos eu ainda ficava vermelha. Ai, que raiva!

---------------------------------------------------------

Quando entramos no elevador, instantaneamente lembrei-me do nosso primeiro beijo. Olhei para Roberta e sorri para ela. Ela ficou vermelha na hora. Amei vê-la assim. Minha vontade foi de beijá-la nesse instante, mas não poderia fazer isso porque, além de assustá-la, tinha mais gente no elevador. O jeito foi segurar a vontade que veio e forte! Saímos do elevador e em seguida do prédio. Olhei para Roberta.

- Bom, você tem preferência por algum restaurante? É que eu nem sei mais quais tem aqui por perto. Disse sorrindo para Roberta.

- Tem dois bons aqui. Podemos ir no Plaza, a variedade é maior.

- Perfeito. Então vamos nesse.

O restaurante era bem pertinho. Entramos, escolhemos uma mesa e nos servimos. O garçom veio pedir o que queríamos para beber e ambas pedimos um suco.

- Roberta, você não imagina como fiquei feliz ao saber que você foi efetivada no banco.

- Imagine a felicidade que foi para mim na época. Eu já estava toda preocupada porque teria que procurar outro estágio ou emprego.

- Imagino sua felicidade sim. E sua mãe, como ela está?

- Dona Sandra está muito bem. Aposentou-se recentemente e está feliz. Agora está com planos de fazer alguma outra coisa que lhe tome o tempo que sobrou. Ela não sabe ficar parada.

- Vai ser bom para ela se ocupar. E seus irmãos? Lembro-me vagamente deles.

- O Juninho casou já tem três anos e em breve terei um sobrinho.

- Isso é legal. Vai ser titia. Falei rindo.

- Vou. Roberta riu também. – O Carlos estuda e trabalha, ainda não casou e diz que não quer nem saber disso por enquanto.

- E ele está estudando o quê?

- Está estudando engenharia mecânica.

- Corajoso. Falei rindo. - Qual a idade deles hoje? Perguntei. Adorava olhar para seus olhos azuis. Eram lindos!

- O Juninho está com vinte e sete anos e o Carlos está com vinte e três.

- E você? Está estudando ou fazendo alguma coisa assim?

- Eu? Roberta disse e riu.

Que vontade de beijar suas covinhas. Pensei.

- Não tô fazendo nada. É de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Roberta disse.

- Ah, Roberta, mas tá namorando, não é? Imagine se uma mulher linda como você vai ficar sozinha. Perguntei sorrindo e encarando seu olhar. Ela baixou os olhos, mas senti tristeza neles. Cheguei a me arrepender de ter perguntado.

- Não, não tenho ninguém. Roberta disse apenas, sem me olhar. Subiu seu olhar, me encarou e perguntou: - E você, Cláudia, está namorando?

- Não, mas estou à procura. Disse rindo.

- É... hummm... boa sorte então. Acho que tem uma pessoa interessada em você.

- Em mim? E quem seria? Perguntei curiosa.

- Ah, não vou lhe dizer. Você é esperta o suficiente para perceber. Roberta falou sorrindo com cara sapeca.

- Vai me deixar curiosa, né?

- Vou.

- Isso não se faz. Disse com carinha de choro.

- Ah, Cláudia. Até parece que você não percebeu as intenções dela.

- Dela? Quem? Fiz-me de desentendida. Eu sabia que ela estava falando da pegajosa da Milena.

- Não vou dizer quem é, tá. Falou e cruzou os braços.

- Ok. Soltei uma risada. – Vou ter que usar meus conhecimentos em desvendar mistérios e descobrirei. A-há, mas não esqueci, você tem um admirador secreto. Ao falar isso, Roberta arregalou os olhos rindo. – Ou pensa que eu me esqueci? Já descobriu quem é?

- Não e nem faço a mínima idéia. Mas bem que eu gostaria de saber quem é.

- Arrasando corações, hein.

- Coitadinha de mim, estou quietinha no meu canto.

- Mas... nem tem idéia mesmo?

- Não tenho mesmo, mas uma hora eu descubro. Roberta falou rindo.

E eu não cansava de admirar a sua beleza, estava cada vez mais encantada com Roberta. Como eu pude ser tão idiota e sair da vida dessa mulher adorável. Como me arrependia de ter feito isso, mas não podia mudar o passado. Queria reconquistá-la, mas precisava antes reconquistar a sua amizade, sua confiança. Continuamos conversando e nada do nosso passado em comum foi falado. Era como se ele não tivesse existido. Melhor assim. Recomeçar sem mágoas.

Terminamos o almoço e voltamos para o nosso trabalho. Eu estava feliz, tudo correu bem e rimos à beça. Foi maravilhoso.

Nenhum comentário: