Cheguei em casa e fui direto para o meu quarto. Não falei com ninguém. Não estava a fim de conversar com ninguém. Tranquei a porta. Deitei-me na cama e abracei meu travesseiro. Chorei muito. Chorava de dor. Chorava de tristeza. Mas, chorava muito era por decepção. Estava decepcionada com Cláudia. Muito decepcionada. Se ela realmente me amasse teríamos dado um jeito de ficarmos juntas. Conversaríamos muito e acharíamos uma solução. Mas ela não me amava. Resolveu tudo da forma que fosse-lhe conveniente. Por isso o pedido para amá-la ontem. Era uma despedida. Desde quando ela sabia disso? É, eu não era importante na vida dela, não quis compartilhar isso comigo. A decepção rasgava meu coração. Novamente desabei num choro copioso. Por quê? Por quê?
Horas se passaram, já estava escuro. Ouço batidas na porta. Era minha mãe chamando-me para jantar. Eu estava sem fome. Mas iria comer alguma coisa, senão ela iria ficar me enchendo o saco. Durante o jantar senti que minha mãe ficou observando-me o tempo todo. Também, eu estava com cara de choro. Impossível não notar. Meu pai e meus irmãos falavam sem parar sobre futebol. Pareciam não notar minha tristeza evidente. Fiquei no maior silêncio. Assim que terminamos de jantar, voltei para o meu quarto.
Deitei-me novamente na cama. Não queria mais sair daqui. Não tinha vontade nem motivos. Alguns minutos depois ouvi suaves batidas na porta. Era minha mãe de novo. Perguntou se poderia entrar e disse que sim.
- Minha filha, o que lhe aconteceu? Estou preocupada com você. Minha mãe perguntou sentando-se na beirada da cama.
- Nada não, mãe. Respondi a ela, fungando meu nariz.
- Como nada, Roberta. Ninguém chora tanto por nada. Ela disse encarando-me.
Olhei para ela e sem conseguir me controlar, desabei de novo num choro sentido. Ela me abraçou. Ficou acariciando meus cabelos.
- Minha filha, confie em mim. O que lhe aflige tanto?
- Ai, mãe...
- Tem a ver com a Cláudia, não tem?
Ela me fez a perguntou e eu saí do abraço e a fiquei encarando sem saber o que dizer. Não esperava que ela perguntasse isso jamais.
- Há um tempo venho lhe observando, Roberta. Percebi que você fica hiper feliz ao lado dela. Passou a ficar todo final de semana na casa dela e não vejo você falando de nenhum rapaz, a não ser o seu amigo Henrique.
- O que você quer dizer com isso, mãe? Perguntei ficando na defensiva, assustada. Será que ela sabia da gente? Pensei.
- Minha filha, eu imagino o que aconteceu entre vocês. Não sou cega. Mas quero ouvir isso de você. Ela disse olhando-me firmemente em meus olhos. Seu olhar não era de repreensão, era um olhar carinhoso.
- Mãe, eu... Tentei falar, mas senti a voz sumir.
- Diga, Roberta. Não tenha medo. Confie em mim. Disse e pegou minhas mãos. Senti-me reconfortada com o carinho dela.
- Sim. É por causa da Cláudia que estou assim. Ela vai embora pra Salvador e... a gente namorava. Falei a última frase tão baixinho que tive dúvidas se minha mãe tinha conseguido ouvi-la.
- Era o que eu imaginava. Não é exatamente o que uma mãe espera de sua filha, mas se você é feliz sendo desse jeito, a mim apenas cabe aceitar as suas escolhas de vida.
- Oh, mãe...
Nos abraçamos e choramos. A partir deste momento passei a ter em minha mãe uma amiga, uma confidente. Aceitou-me como eu era. Nunca me recriminou por eu ser lésbica. Achava que o dia que ela descobrisse fosse fazer um imenso escândalo, que nunca mais iria querer me olhar. Mas não, aceitou-me de coração aberto. Meu pai e meus dois irmãos não sabiam. Com eles a coisa seria mais difícil e quando eu achasse que tivesse chegado a hora abrir-me-ia com eles também. Quando eu tivesse um motivo forte para fazer isso. Tudo no seu devido tempo.
domingo, 13 de abril de 2008
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