Eu estava a caminho do restaurante. Cheguei e estacionei o carro. Pelo visto, todos já estavam ali. Entrei e meu olhar correu pelo restaurante procurando-os. Só faltava eu. Cumprimentei a todos. A pegajosa da Milena estava sentada ao lado de Cláudia. Tive de me sentar no lugar que me restou, ou seja, longe de Cláudia, pois todos queriam ficar perto dela. Como o pessoal é puxa-saco. Credo! Mas a única pessoa que me incomodava ali era a Milena. Não largava mais a Cláudia. Será que estava rolando algo entre elas?
O almoço começou, todos se serviram. E o papo fluía agradável. O assunto? A comemoração de final de ano. O fim do ano se aproximava e o pessoal estava empolgado. Sempre nos reuníamos na associação recreativa do banco, que era localizada em uma chácara. Era um lugar gostoso de ir. Já era uma tradição a comemoração de final de ano ser lá.
Eu comia lentamente tentando digerir o que estava vendo. Milena constantemente pegava no braço de Cláudia. E eu não estava gostando de ver isso. Nem um pouco! Teve um momento que ela cochichou no ouvido de Cláudia. Meu sangue ferveu. E Cláudia respondeu-lhe algo afirmativamente. Estava estranhando a minha reação. Minha vontade era pegar Milena pelos cabelos e tirá-la dali. Tirá-la de perto de Cláudia. Céus, eu estava com ciúmes de Cláudia! Mas eu não devia ter ciúmes dela. Não tinha nada com ela. Definitivamente eu não estava me entendendo. Meu desejo era que este almoço terminasse logo. Queria sair dali. De repente senti-me sufocada. Pedi licença e dirigi-me ao banheiro. Ao chegar nele molhei minhas mãos e molhei meu pescoço. Estava sentindo-me um pouco melhor, mas sentia meu coração apertado. Sequei-me. Ouvi alguém entrando. Vi pelo espelho que era Cláudia.
- Está tudo bem, Roberta? Perguntou-me demonstrando preocupação.
- Tá sim. Estou bem. Tentei sorrir. Ela aproximou-se de mim.
- Está mesmo? Insistiu olhando em meus olhos.
Desviei o olhar. Bateu-me uma vontade de chorar.
- Sim. Falei com a voz embargada, meus olhos estavam úmidos.
Ela levou a mão até meu rosto e o levantou para que eu a olhasse. Faltava pouco para as lágrimas correrem. O que estava acontecendo-me?
- Roberta. Disse e abraçou-me.
Não resisti e as lágrimas rolaram soltas. Definitivamente não estava entendendo-me. Não entendia porque estava chorando. Deixei-me ser abraçada por ela. Sentia-me protegida em seu abraço. Abracei-a também.
- Quer me dizer o que lhe aflige? Perguntou-me toda carinhosa, fazendo carinho em meus cabelos.
- Eu... Não sei...
Nisso ouvimos alguém entrando no banheiro. Vi que era Milena. Saí do abraço, sequei meus olhos com as mãos e saí sem olhar para Cláudia ou Milena. Tudo o que eu não queria era que essa mulher me visse chorando. Até hoje nunca tive nada contra ela. Nunca fomos amigas. Apenas nos tratávamos com cordialidade. Mas eu estava com raiva dela. E o motivo era Cláudia. Estava com ciúmes. Tinha consciência disso. Não queria sentir ciúmes. Não queria, mas senti que a chama do amor que tive no passado estava querendo reacender. Isso não poderia estar acontecendo. Não de novo. Teria que sufocar isso. Não queria viver nada com ela de novo. Devia estar confundindo as coisas. Era isso. Estava confusa, só isso. Estava carente de amor. Carente de atenção. Carente de carinhos. Carência pura. Não era paixão, era carência. Estava há dois anos sem ninguém. Cláudia foi alguém que eu amei no passado e estava transferindo essa carência para a pessoa dela. Não poderia fazer isso. Tinha que evitar ao máximo isso.
As duas retornaram à mesa. E logo estavam conversando com os outros. Cláudia às vezes me olhava. Eu tentava participar das conversas, mas não estava a fim. Sentia-me cansada. Minha vontade era ir para casa e enfiar-me debaixo dos lençóis e sair de lá só amanhã. Mas não podia, pois tinha a tarde toda para trabalhar. Enfim o almoço terminou e retornamos ao banco. A tarde para mim se arrastou. Eu estava deprimida.
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Sexta à tarde ainda. Quando vi Roberta levantar-se apressada e ir ao banheiro, preocupei-me. Tratei de ver o que ela tinha. E quando vi que ela estava quase chorando não resisti e a abracei. Queria protegê-la do que fosse que a estivesse preocupando. Não suportava vê-la chorando.
Estava preocupada com ela. O que aconteceu para fazê-la chorar? Queria ter conversado com ela, mas Milena teve de aparecer justo naquele momento. Tinha horas que Milena acabava sendo inconveniente. Já estava me arrependendo de ter aceitado ir ao tal churrasco amanhã à noite. Mas já tinha dado a minha resposta. Nos próximos convites daria uma resposta qualquer para não ir.
A única pessoa que eu interessava ter por perto era a minha Roberta. Só queria ela. Eu estava ansiosa pelo almoço de domingo. Muito ansiosa. Estava me sentindo uma adolescente apaixonada.
Sábado à noite chegou. Eu já estava no tal churrasco. Vim de carona com Milena. Era na casa de uma amiga dela. Tinha umas trinta pessoas, alguns casais héteros e pelo que pude notar a maioria eram casais de gays e lésbicas. Se eu tinha alguma dúvida sobre Milena, poderia dizer que ela me deu a dica toda. Algumas pessoas estavam na maior agarração. E Milena estava dando todas as indiretas possíveis para mim e eu fazia-me de desentendida. Se ela me desse uma direta, teria de ser indelicada e colocá-la no devido lugar. Não queria nada com ela a não ser amizade, mas se começasse a ser muito inconveniente, nem isso!
Roberta não saía da minha cabeça. Queria muito conversar com ela, mas para tocar nesse assunto teria que esperar um momento apropriado. Talvez amanhã eu conseguisse ou não. Sei lá. Milena aproximou-se de mim toda sorridente.
- Você está tão quietinha? Algum problema, Cláudia? Ou não está gostando?
- Não e sim. Ri. - Nenhum problema e o churrasco está ótimo. Só estava aqui pensando em algumas coisas.
- Algumas coisas?
- Coisas do banco. Sabe como é, não consigo me desligar às vezes.
- Entendo, mas assunto do banco deve ficar lá no banco, não acha?
- Acho. Disse e sorri para ela.
- Vamos dançar? Ela convidou-me.
A música rolava solta. Olhei e vi algumas pessoas dançando. Não era coladinho, então não via problema.
- Vamos. Estou precisando agitar o esqueleto mesmo. E fomos dançar um pouco.
Milena dançava de forma sensual e lançava-me olhares provocantes. Mas o problema era que o único olhar que eu queria receber era de um azul lindo acompanhado de um sorriso meigo, fofo, que eu amava.
O churrasco terminou e fomos embora. Estava cansada. Queria que o dia de amanhã chegasse logo. Chegamos no meu prédio. Senti que Milena esperava um convite para subir ao meu apartamento e novamente me fiz de desentendida. Despedi-me dela rapidamente sem dar tempo de qualquer coisa. Achei que ela foi embora decepcionada, mas não poderia das asas a isso. Fui direto tomar um banho, estava toda suada. Um banho quentinho. Era o que eu estava precisando. Depois caí na cama e dormi igual um anjo.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
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